quarta-feira, 16 de janeiro de 2013
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
PRESS RELEASE
Jornalismo em Quadrinhos
Encontro internacional reúne em Curitiba especialistas nesse novo jeito de se fazer reportagem usando a linguagem dos quadrinhos.
Na década de 1990, o jornalista e desenhista maltês Joe Sacco teve a ideia de juntar suas duas profissões numa só: surgia assim Palestina, uma série de reportagens em quadrinhos sobre as disputas territoriais entre israelenses e palestinos. Seguiram-se outros livros-reportagens sobre conflitos no Oriente Médio, que deram projeção mundial à obra de Joe Sacco. Hoje, duas décadas depois, o Jornalismo em Quadrinhos cresce e ganha seguidores em todo mundo, dando origem a uma nova safra de HQ-repórteres.
Entre 24 e 27 de outubro de 2012, especialistas no tema estarão reunidos, na capital paranaense, para participar do II Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos. São jornalistas, desenhistas e pesquisadores, que participarão de mesas-redondas e palestras. Outra atração do evento é a exposição Cartoon Movement - o mundo através do jornalismo quadrinhos, que exibe reportagens em quadrinhos realizadas em diferentes regiões do mundo. Tanto a exposição quanto os debates ocorrem na Fábrika (Rua Reinaldino S Quadros, 33 - Alto da Rua XV), em Curitiba. Todas as atividades do EIJQ têm entrada franca e são abertas ao público em geral.
O II EIJQ é um evento integrante da Gibicon nº 1 – a Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba e é realizado em parceria com o Goethe-Institut Curitiba. A curadoria é do jornalista Augusto Paim. Consulte a programação do II EIJQ e a programação completa da Gibicon no site www.gibicon.com.br. Outras informações pelo telefone 41 3262-8244.
Serviço:
II Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos
24 a 27 de outubro de 2012
Goethe-Institut (Fábrika)
Rua Reinaldino S. de Quadros, 33, Alto da Rua XV
Curitiba / PR
Entrada franca
Informações 41 3262-8244
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
Um dia bonito na Alemanha
No domingo retrasado acordei relativamente cedo para a manhã que sucede uma festa: 11 horas. Duas pessoas estavam montando a cozinha nova, de modo que a sala (tudo fica numa peça só) estava impossível de transitar. Eu decidi dar uma mão e pintar o teto do corredor em frente ao meu quarto, pois na segunda-feira viria um profissional pôr papel de parede, e o teto tinha de estar pronto. Aproveitei e dei uma demão de tinta no banheiro também. As crianças, enquanto isso, olhavam tevê na sala de espera do consultório dentro de casas de papelão construídas por eles mesmos com as sobras da cozinha nova.
Assim se passaram algumas horas. Depois, quando eu já não tinha mais nada para pintar, as crianças estavam de saco cheio de ver filme e a sala continuava intransitável, fui passear com os meninos. A idéia era jogar bola num campo aqui perto. O dia estava realmente perfeito para isso. Foi uma decisão correta levar a tiracolo minha máquina fotográfica, pois as fotos ficaram muito bonitas.





Assim se passaram algumas horas. Depois, quando eu já não tinha mais nada para pintar, as crianças estavam de saco cheio de ver filme e a sala continuava intransitável, fui passear com os meninos. A idéia era jogar bola num campo aqui perto. O dia estava realmente perfeito para isso. Foi uma decisão correta levar a tiracolo minha máquina fotográfica, pois as fotos ficaram muito bonitas.
No fim do dia, as crianças ainda tinham energia para fazer biscoitos e estrear a cozinha nova. Confortavelmente sem camisa, já que a casa tem calefação.

Laura, Betinho e Augusto em processo de alemanização
Eu e o Betinho voltamos juntos de Paris tal qual Joquim, o inventor incompreendido da música homônima do Vítor Ramil: estávamos morrendo de frio. Mas foto na neve é algo que não tem preço. Quem vê não imagina que estamos tremendo de corpo inteiro, apenas acha chique. Então no primeiro dia em Meppen, norte da Alemanha, já providenciamos as nossas. O lago chegou a congelar.



Nesse dia e nos próximos, eu e o Betinho ajudamos com a última parte da mudança da casa da família com quem estou morando. Ele conheceu o Saboor e o Benedito, os piás que cuido.


Depois, na quarta-feira véspera de Ano Novo, chegou a Laura.

De modo que passamos alguns dias assim, com três brasileiros na casa. A Laura estudando alemão, o Betinho sem saber uma palavra mas aprendendo com as crianças.
Sábado a Laura foi embora. Hoje foi a vez do Betinho. Agora, para rimar, estou de novo sozinho.
Nesse dia e nos próximos, eu e o Betinho ajudamos com a última parte da mudança da casa da família com quem estou morando. Ele conheceu o Saboor e o Benedito, os piás que cuido.
Depois, na quarta-feira véspera de Ano Novo, chegou a Laura.
De modo que passamos alguns dias assim, com três brasileiros na casa. A Laura estudando alemão, o Betinho sem saber uma palavra mas aprendendo com as crianças.
Sábado a Laura foi embora. Hoje foi a vez do Betinho. Agora, para rimar, estou de novo sozinho.
Quando Jesus andou sobre as águas, o fez no inverno alemão!
Num dia bonito aqui (coisa rara nessa época do ano), o pessoal costuma ir para o lago congelado sapiar, aproveitando as poucas horas de sol. Veja fotos de como foi hoje, por exemplo.





Agora vídeos:
No segundo vídeo, Iládio explica que prefere ficar na Alemanha durante o verão, e no Brasil durante o inverno (porque aí é verão agora).
É isso. Hoje foi o único dia que não fiquei com inveja de vocês, que estão no Brasil pegando praia... Eu passei me sentindo Jesus, caminhando sobre o lago!
Agora vídeos:
No segundo vídeo, Iládio explica que prefere ficar na Alemanha durante o verão, e no Brasil durante o inverno (porque aí é verão agora).
É isso. Hoje foi o único dia que não fiquei com inveja de vocês, que estão no Brasil pegando praia... Eu passei me sentindo Jesus, caminhando sobre o lago!
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Susi & Vlad 2: a origem de Vlad
Na postagem anterior, divulguei aqui a reportagem Susi & Vlad, sobre a bióloga Susi Pacheco e sua paixão por morcegos. O texto integral foi publicado na edição 61 da revista Brasileiros. Como prometido, divulgo aqui um material extra que não está lá. Trata-se de um texto incrível, escrito por Tatiana Prevedello, estudante de Letras que, curiosamente, passou muito tempo estudando literatura gótica. Prevedello foi a pessoa que encontrou o morcego Vlad na rua e, com uma atenção bastante inusitada em situações como essa, entregou-o à Susi.
Considero esse texto a parte 1 do relato sobre a Susi e o Vlad. A parte 2 é a reportagem que eu escrevi. Dito de outra forma: minha reportagem é O Senhor dos Anéis, o relato de Prevedello é O hobbit. Assim, quando terminar de ler o texto abaixo, recomendo seguir adiante na reportagem. Ou fazer na ordem contrária.
***
Considero esse texto a parte 1 do relato sobre a Susi e o Vlad. A parte 2 é a reportagem que eu escrevi. Dito de outra forma: minha reportagem é O Senhor dos Anéis, o relato de Prevedello é O hobbit. Assim, quando terminar de ler o texto abaixo, recomendo seguir adiante na reportagem. Ou fazer na ordem contrária.
***
"Relato
sobre o encontro do morcego Vlad e localização da bióloga Susi Pacheco
por Tatiana Prevedello
No dia 12 de dezembro
de 2011, segunda-feira, em torno de 07h45min, estava a caminho do trabalho
quando me deparei com algo na calçada, em decúbito dorsal, a se agitar de uma
maneira agonizante. Imaginei, no primeiro momento, que se tratava de um filhote
de pássaro caído do ninho, pois na noite anterior havia ventado muito. Todavia,
ao aproximar-me para recolhê-lo do chão percebi que era um morcego e, em minha
análise insipiente, acreditei que fosse recém-nascido. Não trazia nada comigo
onde pudesse abrigá-lo de uma forma cuidadosa, e a única alternativa foi
envolvê-lo em um pequeno lenço, guardado na caixa dos óculos de sol. Por alguns
instantes busquei examinar se, nas árvores da rua, existia algum vestígio do local
de onde ele havia caído, mas não encontrei nada que me oferecesse uma resposta
segura.
[A estrela vermelha marca o exato local onde o Vlad foi encontrado, na Rua
Veríssimo Rosa, entre as Avenidas Ipiranga e Bento Gonçalves, em Porto Alegre.]
Optei por levá-lo ao
colégio onde trabalho e conversar com os biólogos, que lá encontraria, sobre
qual seria a melhor forma de atendê-lo. As pessoas para quem o apresentei, com
exceção de uma professora e uma funcionária, demonstraram sentir medo e repulsa
do morcego, além de julgarem incompreensível a minha atitude de recolhê-lo. Fui
aconselhada por uma das biólogas a colocá-lo em uma árvore no pátio, pois ela
não conhecia nenhuma alternativa que poderia ser mais eficiente. Acreditei, no
entanto, ser insensato expor dessa forma uma criatura que aparentava tanta
fragilidade e, além do mais, não sabia se a queda havia provocado alguma
fratura que pudesse comprometer os seus movimentos. Como ele não teria
condições de resistir se apenas fosse deixado ao ar livre, abriguei-o em uma
pequena caixa e levei comigo para a biblioteca, setor onde trabalho.
Tratando-se de um mamífero, tentei conseguir com a funcionária que havia se
solidarizado um pouco de leite para alimentá-lo, mas a única bebida com
características semelhantes que havia naquela manhã era iogurte de morango, que
seria servido na merenda. Não tinha certeza se a composição do iogurte era
adequada e fiquei com medo que alguma substância pudesse causar intoxicação,
mas como não possuía outro recurso, ofereci o iogurte a ele, que veio a
consumir as pequeníssimas quantidades que lhe eram dadas de uma forma muito
voraz.
Por não ter um
recipiente adequado para transportá-lo para casa no intervalo do almoço, decidi
deixá-lo na escola, no local que considerei ser o mais seguro. O passo seguinte
seria pesquisar por instituições e descobrir algum estudioso dedicado à área de
quiropterologia, que pudesse orientar-me a respeito da melhor forma de
atendê-lo. Julguei que a UFRGS e a PUCRS seriam as melhores opções para
proceder ao início da investigação. Todavia, no horário entre 12:00 e 13h30min,
os setores das universidades estavam fechados e, então, busquei outras
alternativas que, no momento, poderiam trazer-me alguma solução. Primeiro,
liguei para o Parque Zoológico do Jardim Botânico, com o propósito de saber se recebiam
animais que houvessem sido resgatados em situação de risco. Conforme me
explicou o responsável pelo Parque Zoológico, o Jardim Botânico era autorizado
a recolher animais apenas sob o encaminhamento de órgãos como o Ibama e a
Polícia Federal. No segundo momento, entrei em contato com alguns pet shops e
clínicas de animais, na esperança de encontrar um veterinário que pudesse me
oferecer informações pontuais sobre os cuidados necessários ou propor
alternativas que indicassem para onde direcionar o morcego. Novamente, não obtive
nenhuma solução. Passei a consultar sites sobre o assunto e descobri que, no
exterior, em países como a Estados Unidos, Austrália e Inglaterra, haviam
muitos pesquisadores dedicados ao resgate e a reabilitação de morcegos, encontrados
desabrigados ou vitimados por fraturas em decorrência de tempestades. Localizei,
também, algumas instituições brasileiras que se dedicavam ao assunto, mas
naquela circunstância não encontrei nenhuma referência relativa a Porto Alegre.
Como precisava retornar
ao trabalho, a única solução imediata que se apresentou ao meu alcance foi
passar no supermercado, comprar uma caixa de leite para alimentá-lo com um
produto mais adequado e retomar as buscas ao final do meu expediente. Durante
aquela tarde, ainda no colégio, alimentei o morcego diversas vezes com leite,
oferecido em uma pequena colher, o qual ele continuava a sorver com muita
voracidade. Uma professora estagiária da turma infantil do 2º ano
sensibilizou-se com a situação e auxiliou-me a acomodá-lo em uma caixa, que foi
utilizada para transportá-lo para casa com mais segurança.
Após as 17 horas,
quando retornei para casa, liguei para o departamento de Ciências Biológicas da
UFRGS, a procura de professores ou alunos de pós-graduação que desenvolviam pesquisas
relacionadas à quiropterologia. Indicaram-me a Profª. Marta Fábian, a qual,
conforme pude observar em seu currículo, é uma grande especialista na área. No
entanto, não consegui localizá-la por telefone. Em seguida, entrei em contato
com a coordenação do curso de Biologia da PUCRS e a minha ligação foi
transferida para o Museu de Ciências e Tecnologia. Fui informada que o MCT não realizava
o acolhimento de animais nessa situação. Aconselharam-me a recolocar o morcego,
assim que anoitecesse, no mesmo local onde ele havia sido encontrado, pois como
os sensores espaciais da espécie são bem desenvolvidos, ao retornar ao seu
lugar de origem ele conseguiria se localizar com facilidade ou ser identificado
por familiares, sobretudo pela mãe que, conforme descobri, são bastante
dedicadas e têm um senso de proteção muito grande.
Aquela noite anunciou
uma nova tempestade, e devolvê-lo ao local onde eu havia o encontrado seria
colocar a sua situação em extremo risco e liquidar qualquer chance de
sobrevivência. Acreditei, assim, que seria mais seguro permanecer comigo em
casa e providenciei um abrigo para que ele pudesse ser instalado, alguns
utensílios para manuseá-lo com segurança, como luvas de látex, e uma seringa,
que foi utilizada para alimentá-lo com leite. Permaneci, ainda, com uma grande
preocupação pelo fato de o dia ter chegado ao final e não ter conseguido o
encaminhamento certo, principalmente porque na manhã seguinte, 13/12/2011,
deveria fazer uma viagem a Santa Maria, ainda cedo, e retornar somente ao final
da noite. Optei, contudo, por conservá-lo em casa, mesmo ao avaliar que poderia
ser arriscado mantê-lo por mais de 15 horas sem alimentação e sem saber em que
condições de saúde o animal se encontrava. No inicio da manhã, ele recebeu leite
e os cuidados que julguei serem necessário. Em seguida, coloquei o mesmo em um
local escuro, protegido do sol, para que não houvesse riscos de exposição à luz
ou de uma possível queda se ele decidisse tentar voar. Quando retornei de Santa
Maria já passava da meia-noite e, para minha surpresa, ele havia permanecido no
mesmo local e posição em que eu havia deixado antes de sair. Tornei a
alimentá-lo com leite, e ainda cheguei a oferecer-lhe frutas, o que ele
recusou. A forma como sorvia o leite revelava uma fome insaciável, pois
aceitava até o ponto em que eu continuava a lhe dar o alimento, não fazendo
nenhuma objeção.
Na quarta-feira,
14/12/2011, ao reiniciar a procura por um especialista que pudesse vir a tratar
do morcego encontrei, na página da Sociedade Brasileira para o Estudo de
Quirópteros, um folder
com informações sobre esses animais, elaborado em decorrência de o Programa das
Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA/UNEP) ter elegido o período de
2011-2012 como o Ano Internacional do Morcego. O referido folder trazia uma
relação de especialistas sobre o assunto de todo o Brasil, juntamente com nome
das instituições às quais os mesmos pertenciam e referências para contato. No
espaço destinado ao Rio Grande do Sul, encontrei os nomes dos profissionais que
poderiam atender em Porto Alegre e, entre eles estava a professora da UFRGS,
Marta Fábian, com a qual não havia conseguido fazer contato telefônico, e a
bióloga Susi Pacheco, para quem liguei em seguida. Recebi da bióloga instruções
por telefone e decidimos que, na tarde daquele mesmo dia, levaria o morcego ao
Instituto Sauver, onde ela trabalha. Procedi conforme combinamos, entreguei o
morcego a Dra. Susi que, ao examiná-lo, logo identificou a sua espécie e
descreveu-me com exímios detalhes as características essenciais da mesma. A
bióloga também me esclareceu que não se tratava de um filhote, mas de um jovem
morcego no início da idade adulta, de natureza insetívora. A intenção inicial,
conforme o parecer da Dra. Susi, era reabilitá-lo em devolvê-lo à natureza. No
entanto, foram diagnosticados uma pequena fratura, provavelmente ocasionada em
decorrência da queda, e um problema de má formação das asas, que apresentavam uma
discrepância no tamanho. Conforme a Dra. Susi relatou-me em contatos posteriores,
essas razões fizeram com que o morcego, que se tornou meu 'afilhado' e na
ocasião de nosso encontro foi batizado com o nome de Vlad (durante o tempo em
que permaneceu em minha casa não havia recebido nome, pois eu não consegui
identificar a qual gênero pertencia), permanecesse sob os cuidados de sua
equipe de trabalho.
![]() |
[Cartão
que Susi Pacheco enviou-me por ocasião do Natal.]"
terça-feira, 21 de agosto de 2012
A bat-reportagem!
Faz um tempo que ando criculando pelas redes sociais com esta foto aqui,
do Tadeu Vilani, da mesma forma que ostentei por semanas, no msn, a frase "Vem aí uma bat-reportagem..."
Pois bem, a bat-reportagem finalmente foi publicada, então já posso falar dela. Está na edição 61, de agosto de 2012, da revista Brasileiros. O conteúdo só pode ser acessado comprando o exemplar nas bancas. Como chamariz, publico aqui o início da reportagem:
Em breve publico aqui um relato de como o morceguito Vlad foi parar nas mãos da Susi. Essa é uma história que não está na reportagem.
Em tempo: a história da Susi e do Vlad foi uma das narrativas que mais me deu prazer em apurar e produzir, nos últimos tempos. É, de fato, uma história muito comovente. Espero que o leitor seja minimamente contagiado por isso.
Boa leitura!
do Tadeu Vilani, da mesma forma que ostentei por semanas, no msn, a frase "Vem aí uma bat-reportagem..."
Pois bem, a bat-reportagem finalmente foi publicada, então já posso falar dela. Está na edição 61, de agosto de 2012, da revista Brasileiros. O conteúdo só pode ser acessado comprando o exemplar nas bancas. Como chamariz, publico aqui o início da reportagem:
"Susi e Vlad
Eis a história da luta enfrentada por uma incansável bióloga para salvar um animal do qual a maioria das pessoas sente medo, muuuuuito medo.
por Augusto Paim
Porto Alegre, quase 10h da manhã. Pela clínica veterinária Toca dos Bichos, costumam passar gatos, cachorros, pássaros, tartarugas e coelhos. Nesta sexta- feira, 16 de março, porém, em breve irromperá pela porta um animal que não se costuma ver por aqui.
Na sala de espera, ouve-se um papagaio cantando a versão gaúcha do parabéns a você (“Parabéns, parabéns / saúde, felicidade / que tu colha sempre todo dia / paz e alegria na lavoura da amizade”). Lá fora, um macaco maneta tenta fazer as acrobacias próprias da sua natureza apesar das novas limitações físicas. É nesse cenário que surge Susi, 49 anos. Ela chega sorrindo – sempre sorrindo –, o cabelo arrumado num coque no alto da cabeça. Traz entre as mãos um pequeno pano branco, dobrado em dois. Ela deposita-o sobre o balcão. Abre. Entrevê-se agora o pequeno e calmo Vlad. Pesando apenas 12 gramas, ele é mais leve que uma barrinha de cereal." [...]
Em breve publico aqui um relato de como o morceguito Vlad foi parar nas mãos da Susi. Essa é uma história que não está na reportagem.
Em tempo: a história da Susi e do Vlad foi uma das narrativas que mais me deu prazer em apurar e produzir, nos últimos tempos. É, de fato, uma história muito comovente. Espero que o leitor seja minimamente contagiado por isso.
Boa leitura!
segunda-feira, 13 de agosto de 2012
Aldeia Global
Não faz muito, em junho, enquanto flanava pelas ruas de Paraty, RJ, dias antes da famigerada FLIP começar, conversei com muita gente e conheci muita história bacana. Nessas horas de bate-papos despreocupados, apesar do estado de relaxamento em que me encontrava, meus ouvidos de jornalista estavam sempre atentos a qualquer possibilidade de pauta.
Foi assim que um dia, por acaso, fiquei sabendo duma história no mínimo inusitada: que uma professora licenciada em informática estava traduzindo o BrOffice (versão brasileira e aberta do Word) para a língua dos índios.
Considero esse um achado. Mesmo. Porque essa professora não divulga seu trabalho. Porque sequer seus colegas mais próximos sabiam disso. Eles reagiam surpresos quando eu contava: "O quê? A Gilmara está traduzindo um software pro guarani???"
Claro que desse estopim inicial que foi a ideia da pauta até a versão final, que acaba de ser publicada (veja abaixo), houve muita apuração, pesquisa de novas fontes, entrevistas conseguidas a fórceps e tudo que costuma pertencer à rotina jornalista. Mas esse imenso trabalho só foi possível por causa da conversa que tive por acaso com a Gilmara, num dia em que dividimos um táxi para voltar da Associação Cairuçu (onde ministrei uma oficina de quadrinhos) até a cidade de Paraty. É por isso que dedico essa reportagem a ela.
***
[continue lendo].
Foi assim que um dia, por acaso, fiquei sabendo duma história no mínimo inusitada: que uma professora licenciada em informática estava traduzindo o BrOffice (versão brasileira e aberta do Word) para a língua dos índios.
Considero esse um achado. Mesmo. Porque essa professora não divulga seu trabalho. Porque sequer seus colegas mais próximos sabiam disso. Eles reagiam surpresos quando eu contava: "O quê? A Gilmara está traduzindo um software pro guarani???"
Claro que desse estopim inicial que foi a ideia da pauta até a versão final, que acaba de ser publicada (veja abaixo), houve muita apuração, pesquisa de novas fontes, entrevistas conseguidas a fórceps e tudo que costuma pertencer à rotina jornalista. Mas esse imenso trabalho só foi possível por causa da conversa que tive por acaso com a Gilmara, num dia em que dividimos um táxi para voltar da Associação Cairuçu (onde ministrei uma oficina de quadrinhos) até a cidade de Paraty. É por isso que dedico essa reportagem a ela.
***
"Aldeia Global
Em Paraty Mirim, RJ, localizada a cerca de meia hora de Paraty (a cidade da FLIP), uma comunidade indígena vive as primeiras experiências de conexão com a internet.
por Augusto Paim
Choveu bastante entre os dias 7 e 8 de julho, o final de semana da Festa Literária Internacional de Paraty, e por isso os ônibus que iam para Paraty Mirim tiveram que permanecer na garagem da empresa. Em momentos como esse, bastante comuns, a aldeia fica isolada, e a comunicação só pode ser feita pelos telefones celulares e, recentemente, pela internet."
[continue lendo].
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Atlas literário-geográfico
Eis um assunto pouco divulgado, infelizmente: o IBGE produziu uma série chamada Atlas das Representações Literárias de Regiões Brasileiras. Leia o trecho do já antigo press release:
"Em 2006, com o lançamento do volume Brasil Meridional, o IBGE deu início à coleção Atlas das representações literárias de regiões brasileiras, que tem por objetivo identificar e representar, através de mapas em diferentes escalas, fotos e imagens de satélite, regiões brasileiras que constituíram elemento marcante da trama de algumas das grandes obras da Literatura nacional, construindo, dessa forma, um mapeamento onde a identidade é o elemento central para individualização dos diferentes segmentos territoriais que compõem o quadro nacional."
Aqui é possível acessar, gratuitamente, o volume 1, sobre o Brasil meridional. Já o volume 2, sobre o Sertão, está disponível aqui. Divirtam-se!
"Em 2006, com o lançamento do volume Brasil Meridional, o IBGE deu início à coleção Atlas das representações literárias de regiões brasileiras, que tem por objetivo identificar e representar, através de mapas em diferentes escalas, fotos e imagens de satélite, regiões brasileiras que constituíram elemento marcante da trama de algumas das grandes obras da Literatura nacional, construindo, dessa forma, um mapeamento onde a identidade é o elemento central para individualização dos diferentes segmentos territoriais que compõem o quadro nacional."
Aqui é possível acessar, gratuitamente, o volume 1, sobre o Brasil meridional. Já o volume 2, sobre o Sertão, está disponível aqui. Divirtam-se!
quarta-feira, 20 de junho de 2012
A capa das capas
Eis um trabalho especial. Começou como uma reportagem relativamente simples sobre capas de livros, pauta que eu mesmo ofereci como uma das matérias que integrariam o conteúdo da terceira edição da Revista Pessoa. Durante o desenvolvimento da reportagem, porém, ela foi crescendo de importância, crescendo, crescendo... Acabou virando a matéria de capa!
(Um detalhe que me deixa muito contente e que não pode ser percebido pelo leitor: as duas frases estampadas como manchete - "A capa é o rosto do livro. Ela pisca para o leitor" - eram o subtítulo da minha reportagem.)
Folheie. Leia. Sinta.
(Um detalhe que me deixa muito contente e que não pode ser percebido pelo leitor: as duas frases estampadas como manchete - "A capa é o rosto do livro. Ela pisca para o leitor" - eram o subtítulo da minha reportagem.)
Folheie. Leia. Sinta.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Aproximações entre a Palestina e o Rio de Janeiro
Com muito orgulho, divulgo aqui a minha colaboração com o instituto Melton Prior, localizado em Düsseldorf, na Alemanha. Escrevi para eles um relato sobre o processo de produção da reportagem em quadrinhos Inside the Favelas, relacionando a minha experiência nas favelas do Rio de Janeiro com as de Joe Sacco na Palestina. O ensaio, em inglês, pode ser lido na seção de notícias do site do instituto. Tem que procurar pela data de publicação: 3 de junho de 2012.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Proeza com a "Proa"
Com muito orgulho, mas muito orgulho MESMO, divulgo aqui uma revista que é mais do que uma publicação - é o ponto de encontro de inúmeras histórias e da minha própria história pessoal.
Deixa eu explicar desde o começo. Entre 2003 e 2007, cursei a faculdade de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), experiência acadêmica e de vida da qual sou muito grato. Entre as pessoas importantes que conheci nesse período, está o professor Paulo Roberto de Oliveira Araujo, responsável pela minha formação em Jornalismo Literário. Tornamo-nos amigos, o que considero uma evolução natural de uma relação bem-sucedida entre aluno e professor. Mais do que isso, também desenvolvemos projetos juntos. O principal deles foi a criação das disciplinas complementares de Jornalismo Cultural e Jornalismo Literário, ofertadas aos estudantes da Facos/UFSM. Tive a oportunidade de conceber, na condição de monitor, o programa das duas disciplinas, junto com o Paulo. Também em parceria, montamos os cronogramas, preparávamos o material para uso dos alunos e avaliávamos cada aula.
Pois bem. Quando me formei, passei o bastão da monitoria para os colegas que vieram depois. A continuidade foi garantida, principalmente graças ao engajamento do Paulo. E eis que, passados já cinco anos da minha formatura, recebo aqui na minha casa, em Porto Alegre, esta revista aqui:
(Obviamente, recebi um exemplar impresso...)
Trata-se da edição zero da Revista Proa de Jornalismo Literário, editada pelo Paulo com a professora Viviane Borelli e a equipe de alunos.
Fico imensamente orgulhoso por ter sido citado no editorial, e muito lisongeado com a publicação de um conto meu - Para cima o santo não ajuda -, que aparece em destaque já nas primeiras páginas. Para mim, a revista representa não só o esforço pró-Jornalismo Literário do Paulo e seus monitores, mas também coroa essas relações de confiança e afeto que são intrínsecas às melhores experiências.
Recomendo a revista a todos os que lêem este blog e parabenizo imensamente ao professor Paulo pela proeza. Agradeço ainda pelo espaço e, principalmente, pela amizade.
Deixa eu explicar desde o começo. Entre 2003 e 2007, cursei a faculdade de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), experiência acadêmica e de vida da qual sou muito grato. Entre as pessoas importantes que conheci nesse período, está o professor Paulo Roberto de Oliveira Araujo, responsável pela minha formação em Jornalismo Literário. Tornamo-nos amigos, o que considero uma evolução natural de uma relação bem-sucedida entre aluno e professor. Mais do que isso, também desenvolvemos projetos juntos. O principal deles foi a criação das disciplinas complementares de Jornalismo Cultural e Jornalismo Literário, ofertadas aos estudantes da Facos/UFSM. Tive a oportunidade de conceber, na condição de monitor, o programa das duas disciplinas, junto com o Paulo. Também em parceria, montamos os cronogramas, preparávamos o material para uso dos alunos e avaliávamos cada aula.
Pois bem. Quando me formei, passei o bastão da monitoria para os colegas que vieram depois. A continuidade foi garantida, principalmente graças ao engajamento do Paulo. E eis que, passados já cinco anos da minha formatura, recebo aqui na minha casa, em Porto Alegre, esta revista aqui:
(Obviamente, recebi um exemplar impresso...)
Trata-se da edição zero da Revista Proa de Jornalismo Literário, editada pelo Paulo com a professora Viviane Borelli e a equipe de alunos.
Fico imensamente orgulhoso por ter sido citado no editorial, e muito lisongeado com a publicação de um conto meu - Para cima o santo não ajuda -, que aparece em destaque já nas primeiras páginas. Para mim, a revista representa não só o esforço pró-Jornalismo Literário do Paulo e seus monitores, mas também coroa essas relações de confiança e afeto que são intrínsecas às melhores experiências.
Recomendo a revista a todos os que lêem este blog e parabenizo imensamente ao professor Paulo pela proeza. Agradeço ainda pelo espaço e, principalmente, pela amizade.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
Entre quadrinhos e traduções
Divulgo aqui uma entrevista que adorei responder. As perguntas são de Rodrigo Casarin e Alberto Naninni, para o blog Canto dos Livros. O tema: tradução, quadrinhos, jornalismo etc.
Leia a entrevista aqui!
Leia a entrevista aqui!
sexta-feira, 11 de maio de 2012
Psicose
Ontem estive na plateia de um evento em que falava o professor Oswaldo Lopes Jr., um aficionado por cinema, quadrinhos, literatura e fotografia. Em suma, por tudo que há!
A fala dele girou em torno de adaptações de uma obra para diferentes linguagens. Reproduzo aqui um trecho que me parece exemplar. O professor falava de Psicose, filme de Hitchcock que é baseado num romance de Robert Bloch, que é baseado numa história real ocorrida nos Estados Unidos.
Esta é a cena clássica do filme de Hitchcock, de 1960:
Impactante ainda hoje!
Pois o professor Lopes trouxe o livro de Bloch. Fiz questão de copiar um trecho. Veja a mesma cena como ficou em prosa:
Assim, subitamente, termina o capítulo. Que dizer...? A prosa é tão impactante, tão bem feita quanto o filme. Dá para entender de onde Hitchcock retirou elementos para fazer a cena que se tornou um clássico da história do cinema.
***
Em tempo. Se é para citar Robert Bloch como musa de Hitchcock, não posso esquecer de também mencionar Ed Gein, o homem que inspirou tudo isso.
A fala dele girou em torno de adaptações de uma obra para diferentes linguagens. Reproduzo aqui um trecho que me parece exemplar. O professor falava de Psicose, filme de Hitchcock que é baseado num romance de Robert Bloch, que é baseado numa história real ocorrida nos Estados Unidos.
Esta é a cena clássica do filme de Hitchcock, de 1960:
Impactante ainda hoje!
Pois o professor Lopes trouxe o livro de Bloch. Fiz questão de copiar um trecho. Veja a mesma cena como ficou em prosa:
"Mary giggled again, then executed an amateurish bump and grind,
tossed her image a kiss and received one in return. After that she stepped
into the shower stall. The water was hot, and she had to add a mixture from
the COLD faucet. Finally she turned both faucets on full force and let the
warmth gush over her.
The roar was deafening, and the room was beginning to steam up.
That's why she didn't hear the door open, or note the sound of footsteps. And at first, when the shower curtains parted, the steam obscured the face.
Then she did see it there -- just a face, peering through the curtains, hanging in midair like a mask. A head-scarf concealed the hair and the glassy eyes stared inhumanly, but it wasn't a mask, it couldn't be. The skin had been powdered dead-white and two hectic spots of rouge centered on the cheekbones. It wasn't a mask. It was the face of a crazy old woman.
Mary started to scream, and then the curtains parted further and a hand appeared, holding a butcher knife. It was the knife that, a moment later, cut off her scream.
The roar was deafening, and the room was beginning to steam up.
That's why she didn't hear the door open, or note the sound of footsteps. And at first, when the shower curtains parted, the steam obscured the face.
Then she did see it there -- just a face, peering through the curtains, hanging in midair like a mask. A head-scarf concealed the hair and the glassy eyes stared inhumanly, but it wasn't a mask, it couldn't be. The skin had been powdered dead-white and two hectic spots of rouge centered on the cheekbones. It wasn't a mask. It was the face of a crazy old woman.
Mary started to scream, and then the curtains parted further and a hand appeared, holding a butcher knife. It was the knife that, a moment later, cut off her scream.
And her head."
Assim, subitamente, termina o capítulo. Que dizer...? A prosa é tão impactante, tão bem feita quanto o filme. Dá para entender de onde Hitchcock retirou elementos para fazer a cena que se tornou um clássico da história do cinema.
***
Em tempo. Se é para citar Robert Bloch como musa de Hitchcock, não posso esquecer de também mencionar Ed Gein, o homem que inspirou tudo isso.
200 anos de contos de Fadas
Escrevi uma matéria para a Revista da Cultura sobre o bicentenário de Kinder- und Hausmärchen, a publicação dos irmãos Grimm que apresentou ao mundo, de forma sistematizada, uma imensidão de contos de fadas presentes na cultura ocidental. Quem quiser ler, clique aqui.
Mas a ideia deste blog não é só divulgar links, como também postar material extra, bastidores de reportagens etc. Aliás, mantenho este espaço justamente para casos como o de hoje.
Diana Corso, autora de Fadas no Divã, foi uma das entrevistadas da matéria. No texto que foi ao ar, recém lincado aí em cima, aparecem algumas poucas aspas dela, por motivos de economia de caracteres. O depoimento da Diana, porém, é bem mais completo do que isso. Perguntei-lhe sobre o poder fabular de readaptações contemporâneas para contos de fadas (como Shrek), e a reposta dela, por ser instigante demais para ficar escondida na minha caixa de entrada de emails, vem copiada abaixo:
Mas a ideia deste blog não é só divulgar links, como também postar material extra, bastidores de reportagens etc. Aliás, mantenho este espaço justamente para casos como o de hoje.
Diana Corso, autora de Fadas no Divã, foi uma das entrevistadas da matéria. No texto que foi ao ar, recém lincado aí em cima, aparecem algumas poucas aspas dela, por motivos de economia de caracteres. O depoimento da Diana, porém, é bem mais completo do que isso. Perguntei-lhe sobre o poder fabular de readaptações contemporâneas para contos de fadas (como Shrek), e a reposta dela, por ser instigante demais para ficar escondida na minha caixa de entrada de emails, vem copiada abaixo:
"Os contos de fadas são a prova que em termos de referências ficcionais algumas coisas se perdem, mas muitas sobrevivem justamente porque se transformam. O imaginário é plástico como os sonhos: possui um acervo de referências, mas as utiliza livremente para montar enredos originais ou colocados a serviço das necessidades da mente do sonhador. Contos de fadas não têm um cânone, os que conhecemos já constituem sucessivas re-leituras, entre as quais as de Perrault e dos irmãos Grimm tornaram-se referências clássicas, mas também temos as importantes versões de Disney, assim como as inúmeras histórias correlatas ou simples variações da mesma trama, presentes no acervo de contos de diferentes culturas.
A Bela e a Fera, por exemplo, é uma típica história de noivo-animal, há muitas delas, mas que costuma ser tomada a partir da versão escrita por duas autoras francesas do séc XVIII; tem no filme de Cocteau, de 1946, outra importante fonte do imaginário associado a essa trama; além de que recentemente os Estúdios Disney transformaram a jovem, que era simplesmente boa, numa intelectual. As mudanças dessa heroína foram refletindo as das próprias mulheres, nada surpreende então que surja uma Branca de Neve que luta com seus punhos ou que entra em franca disputa de beleza com uma madrasta que se recusa a envelhecer! Shrek, o ogro aparentemente ranzinza, além de brincar livremente com todo esse acervo de contos, como o fazem as crianças na sua atividade lúdica, revelou-se principalmente um humorista. Ele faz graça com os elementos do passado ficcional, mas também com o presente, com a realidade do amor e da família contemporâneos. Além dessas mudanças, que customizam os personagens ao gosto da tendência narrativa de cada época, há o fato de que os contos de fadas foram sendo cada vez mais adaptados ao uso das crianças e cerceados para esse fim. Saídos da narrativa oral, das veladas dos trabalhadores cansados e dos contadores de histórias para o quarto das crianças, onde passaram alguns séculos, pelo jeito eles estão se voltando também para os grandes. Os jovens e adultos estão reivindicando a sobrevivência de seus antigos heróis para acompanhar os que já cresceram em sua jornada pela vida. Isso é um retorno, muitas dessas histórias já foram 'para gente grande', antes de virarem contos da carrochinha. Como se vê, elas se transformam!"
quarta-feira, 2 de maio de 2012
sexta-feira, 20 de abril de 2012
Fradique Mendes contra a ansiedade
Todos aqueles que, no longo processo de aprendizado de uma nova língua, angustiam-se com as dificuldades de pronúncia, acima dos outros problemas naturais de todo idioma, seja o alemão, o inglês, o francês, o russo, o japonês... enfim, todos aqueles que aprendem ou aprenderam algum tipo de língua (pensando bem, o verbo só pode ser conjugado no presente) devem apreciar pra caramba este trecho de A Correspondência de Fradique Mendes, gostoso livro ao melhor e mais maduro estilo de Eça de Queirós:
Na mesma fictícia carta, Fradique Mendes, personagem de Eça, argumenta que querer dominar a pronúncia de uma língua é um ato anti-nacional e anti-identitário. O trecho é cômico, claro, e obedece às dinâmicas internas de caracterização da personagem. Ou seja, não deve ser levado ao pé da letra. Mas não deixa de ter um fim terapêutico para aqueles que se angustiam com essa difícil parte do processo ainda mais difícil de se aprender uma língua.
"Porque as línguas, minha boa amiga, são apenas instrumentos do saber - como instrumentos de lavoura. Consumir energia e vida na aprendizagem de as pronunciar tão genuína e puramente, que pareça que se nasceu dentro de cada uma delas, e que, por meio de cada uma, se pediu o primeiro pão e água da vida - é fazer como o lavrador, que em vez de se contentar, para cavar a terra, com um ferro simples encabado num pau simples, se aplicasse, durante os meses em que a horta tem de ser trabalhada, a embutir emblemas no ferro e esculpir flores e folhagens ao comprido do pau. Com um hortelão assim, tão miudamente ocupado em alindar e requintar a enxada, como estariam agora, minha senhora, os seus pomares da Touraine?"
Na mesma fictícia carta, Fradique Mendes, personagem de Eça, argumenta que querer dominar a pronúncia de uma língua é um ato anti-nacional e anti-identitário. O trecho é cômico, claro, e obedece às dinâmicas internas de caracterização da personagem. Ou seja, não deve ser levado ao pé da letra. Mas não deixa de ter um fim terapêutico para aqueles que se angustiam com essa difícil parte do processo ainda mais difícil de se aprender uma língua.
quarta-feira, 28 de março de 2012
Por um lugar para Liniers na Academia
Com muito orgulho divulgo aqui o novíssimo número (o quarto!) dos Cadernos de Não-Ficção, publicação de ensaios sobre literatura da editora porto-alegrense Não Editora. Esta edição trata da Argentina. Tive a oportunidade de prestar a minha colaboração, com um ensaio sobre as entrevistas em quadrinhos do Liniers. Pode folhear e ler à vontade aí embaixo. O meu texto começa na página 62 e vai até a 69.
Importante: se clicar em cima com o mouse, você consegue ler em tela cheia. Bem mais confortável para os olhos!
Importante: se clicar em cima com o mouse, você consegue ler em tela cheia. Bem mais confortável para os olhos!
Open publication - Free publishing
sexta-feira, 23 de março de 2012
sábado, 10 de março de 2012
Senhor Cash
Ainda aproveitando a onda de comemorações aos 80 anos da data de nascimento de Johnny Cash, celebrados no último dia 26 de fevereiro, tive a oportunidade de responder a uma gostosa entrevista sobre a tradução de Johnny Cash - uma biografia, do quadrinista alemão Reinhard Kleist. As perguntas são do blog Senhor Cash, hiper-especializado na obra do músico. Segue abaixo!***
"No livro, vemos um Johnny Cash mais sombrio. Foi essa mesma a intenção de Kleist?
Qual a importância das músicas (letras) no livro, já que algumas ganharam aspecto de mini-capítulos?
É difícil fazer a biografia de um músico, tanto em quadrinhos quanto em prosa. Por quê? Porque esses são meios visuais, o que faz perder o principal elemento de um personagem como esse: a sua arte. Não que isso inviabilize um trabalho, pois há alternativas. Kleist, por exemplo, usa as músicas como interrupções para dar ritmo à leitura - como as pausas em uma música! Ele inclusive 'desenha' essas músicas, da mesma forma que Crumb faz em Blues. Isso só é possível, claro, porque as canções de Johnny Cash são de natureza narrativa. Elas contam uma história e, quando a ouvimos, imaginamos essa história. São, portanto, músicas visuais!
Por outro lado, essa estrutura utilizada por Kleist tem outra função: ela insere as obras dentro do contexto da vida do autor contada durante todo o livro. Porque os grandes artistas - os de reconhecimento duradouro - não criam apenas por objetivos comerciais. Eles 'sentem' o que criam, e essa sua obra tem então origem nos acontecimentos à sua volta. Assim é a história de Johnny Cash e assim conseguiu Kleist reproduzir essa história na forma de quadrinhos.

Por que o livro ganhou tantos prêmio pelo mundo todo?
Premiações às vezes dizem respeito mais a questões extraliterárias (extraquadrinísticas também) do que à qualidade da obra. Mas há casos raros em que mérito e reconhecimento do meio coincidem. É o caso de Cash - uma biografia. Vejo nessa obra diversos motivos para essa carreira premiada. Um dos principais são técnicos: a qualidade do desenho, as dificuldades de narrar em preto e branco, o layout das páginas... Outros são de natureza narrativa: o modo como Kleist compôs a obra, a escolha do narrador, a estrutura dos capítulos etc. Mas, no fundo, no fundo, o que importa mesmo é o conjunto da obra composto pelo mosaico de todas essas partes. O que importa mesmo é a interpretação que Kleist nos dá de Johnny Cash. Sem romantismo, sem iconolatria. Apenas o homem e o que ele conseguiu com sua arte, sem esquecer aí o que isso lhe custou. O ônus e o bônus. Como na vida de todos nós, pessoas reais.
Na sua opinião, o que diferencia Cash de outro ídolos da música americana?
Acho que a sua versatilidade é um elemento importante que o diferencia. Johnny Cash, que começou com um ídolo comum da música country, tornou-se no fim da vida um artista contracultural. E em todas as fases da sua carreira há músicas emblemáticas que permanecem idolatradas até hoje. Ele também é bastante admirado por sua audácia e coragem - como por ter tocado para os prisioneiros na prisão Folsom, por exemplo - e pela sua perseverança ante os obstáculos da vida - a morte do irmão, as crises com as drogas, o relacionamento com June. Em suma, Johnny Cash sintetiza a unificação entre artista e obra, e aqueles que o admiram de verdade o admiram como homem e como músico. "
Assinar:
Postagens (Atom)

