quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Pegando carona com o Augusto

Dirigindo ou pedalando na Alemanha, cheguei à seguinte conclusão: não só o tempo, mas também a distância é relativa. O que é perto é longe, e o que é longe é ao lado do lugar em que você estava a uma hora atrás.

Não entendeu? Pois é bem assim que me sinto em relação ao trânsito aqui. Não entendo nada, absolutamente nada. Talvez porque seja mais organizado que no Brasil.

Outro dia, peguei minha bicicleta e sai a passear, sem destino, mas com direção. No campo, ao longe, vi um monte de ventiladores para captação de energia eólica, que têm aos montes aqui. Pois decidi, curioso que sou, vê-los de perto. Pedalei, pedalei, e uma hora os ventiladores tinham de finalmente aparecer. Então, eis que eles surgem:



Depois desse passeio natureba e zen, pedalei mais um pouco de volta para casa. Decidi fazer um outro caminho, mas imaginando que daria no destino que eu queria. Fiz meia dúzia de voltas para passear mais um pouco, mas meu sistema de orientação (que, admito, não é dos melhores ou, dizendo em outras palavras, é dos piores) me dizia que eu estava bem longe do ponto de partida. De repente, vi um caminho no meio dumas árvores muito parecido com o caminho que costuma levar de volta para casa. Peguei essa rota apenas de curiosidade, porque seria impossível ser aquele o caminho certo. 200 metros depois, eu estava em casa.

Não entendi bulhufas. Também não daria muita bola para isso, se não tivesse acontecido muitas e muitas outras vezes depois. Enfim, ainda não encontrei explicação, a não ser a de que as ruas aqui são circulares, embora não pareçam. Ou seja, você está sempre andando em círculos, sempre voltando para o mesmo lugar. Pegando certas ruas, você anda em círculos e sai em outro lugar. Faz sentido para os alemães, para mim ainda não.

***

No último final de semana, a Sílvia, amiga austríaca da Christine, esteve nos visitando. Segunda-feira, ao meio-dia, ela precisava pegar o vôo de volta para Viena. O aeroporto mais próximo fica em Münster, a 90 km de Haselünne. A Christine tinha que trabalhar e pediu para eu levar a amiga. Como se já não fosse desafio grande voltar sozinho de carro, me ofereci para, às 13h, pegar os meninos no colégio, em Meppen, a 20km de Haselünne.

Saímos às 10h, eu e a Sílvia. A ida foi tranqüila, quase nem precisamos usar o aparelho de navegação por GPS (que praticamente todo mundo tem aqui). Às 11h30, chegamos no aeroporto. Eu tinha mais uma hora e meia para voltar.

Esse aparelho de GPS não é 100% confiável, mas quase. Em alguns momentos, me parecia que o caminho de volta era outro, mas pensei: "na dúvida, vou pelo GPS. Pelo menos a culpa não é minha." O computador foi me levando por estradas novas, que eu não tinha usado na ida. Peguei duas Auto-Bahn, as famosas auto-estradas alemãs. Eu dirigia à 120 ou 130km/h, a direção chegava a tremer, e ainda assim passavam carros ao meu lado muito mais rápidos. Uma curiosa sensação essa, ultrapassar um carro numa Auto-Bahn, voltar para o lado direito da pista e seguir viagem tranqüilo. Em alta velocidade, mas tranqüilo. Parece incoerente, mas aqui é possível.

Eu me sentia como no início do filme "O Céu de Lisboa", do diretor alemão Wim Wenders. Quem ainda não viu, recomendo. É uma obra-prima. No início do filme, o protagonista dirige da Alemanha até Portugal, e a câmera fixa vai mostrando diferentes estradas, momentos do dia, condições climáticas e paisagens que o motorista encontra. Sem falar nas músicas que mudam, ou no som da estrada, quando o rádio está desligado, que também muda. Essa seqüência de imagens me parece registrar muito bem certa sensação que temos quando viajamos, embora eu não saiba explicar que sensação é. Bem, o filme do Wim Wenders já explica.


Voltando à minha viagem. Eu estava tal qual um personagem de cinema, e o diretor do filme era o GPS. Saí da Auto-Bahn e fui parar numa estrada mais ou menos conhecida. Estava agora em Meppen, 10 min atrasado, mas em tempo.

Meppen eu visito freqüentemente, embora ainda não tenha decorado bem as ruas. Daí que eu não sabia ao certo como chegar até a escola. Depois de algumas manobras um pouco diferentes do convencional e algumas apagadas na primeira marcha em função do nervosismo, confessei a mim mesmo de que eu estava perdido. Aliás, não só perdido, perdidaço. E o relógio continuava a andar...

Liguei para a Christine, mas ela fala alemão, e eu, português. Ela arranha um português, eu arranho um alemão. De modo que não adiantou muito. Apenas ficou claro que eu precisava pedir ajuda na rua. Andei mais um pouco, na esperança de o destino me colocar na rua certa. Parei o carro para fuçar no GPS. No espelho lateral, vi um carro da polícia se aproximando. Aí, meu amigo, não tive dúvida: fiz sinal para a viatura parar.

Traduzindo, o que falei para o Seu Guarda foi mais ou menos assim: "Olá, desculpa por incomodar. Eu sou brasileiro e estou perdido. (Pausa para o policial dizer "Brasil!", uma palavra mágica que sempre abre portas, talvez porque remeta a cerveja, mulher e futebol.) O senhor sabe onde fica a escola Maria Monte-Sourre? Poderia me guiar até lá?"

Cara-de-pau, eu. Mas, nessas horas, isso pouco importa. O Seu Guarda, cumprindo um dos seus deveres profissionais que é servir à população, me guiou por duas ou três ruas. Descobri que estive bem perto da escola, mas errei a saída na última rotatória. Foi por pouco.

A aventura foi só até aí. Depois bem fácil: pegar os piás e voltar para casa, aliviado, com uma bóia bem boa me esperando para recuperar o cansaço.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Depois de ser pauta, viro novamente jornalista...

Faz tempo que digo: "em breve, falo mais sobre a história da família que me recebe." Não era enrolação não. É que eu esperava a matéria que escrevi entrar no site da revista Continuum, do Itaú Cultural. Isso aconteceu hoje.

Dei uma liga que vou te contar. Acho que na segunda semana na Alemanha troquei emails com um dos editores, contando como estava minha vida aqui e que história de vida maravilhosa tinha essa família. Casualmente, eles estavam preparando uma edição da revista (que é mensal, com temas sempre ligados à cultura) sobre imigração. A história se encaixava direitinho.

Ah, bom deixar claro: quando falo em história de vida maravilhosa, não é força de expressão. Para você entender, copio aqui o início do texto, que já diz muita coisa. Se você se interessar, cutuque no link depois e continue lendo no site da Continuum.

***

"Na Alemanha, um pouquinho de Brasil, iá, iá...
Em Haselünne, pequena cidade no norte da Alemanha, uma família multicultural vive diariamente a experiência de intercâmbio

Por Augusto Paim

No dia 17 de outubro de 2003, início da tarde, a alemã Christine Hoffmeister chegou ao abrigo Tia Júlia, em Fortaleza, Ceará. Trazia consigo a carta autorizando a adoção do menino José Iládio da Silva Rodrigues. Havia já seis anos que Christine esperava por essa decisão judicial, e agora a tinha em mãos. Não conseguiu nem almoçar, de ansiedade.

Na porta do abrigo, a assistente social pegou a carta, leu e falou: 'Não pode ser. Aqui diz que é para você adotar o Iládio. Ele tem um irmão!'. Christine não sabia. Iládio, de 6 anos, foi escolhido para adoção porque era o primeiro da lista de espera. A assistente social fez Christine entrar. Lá dentro, mostrou a carta a outras funcionárias do abrigo. Todas ficaram surpresas. Diziam: 'Vão separar os irmãos.'

Christine foi levada para a sala onde se faz o contato inicial entre os pais adotivos e a criança. Iládio entrou. A assistente social fez a apresentação: 'Iládio, agora você tem uma nova mãe. Ela vem da Alemanha'. O menino sentou-se no colo de Christine. A nova mãe disse: 'Eu aprendi português para falar com você'.

As pessoas na sala discutiam sobre o problema do irmão. Christine entrou no assunto e não percebeu quando Iládio, pequeno e magro, saiu de seu colo. Em instantes, porém, voltou, trazendo pela mão outro menino, ainda menor. Os dois foram até Christine.

'Benedito', disse Iládio para o irmão, 'essa é nossa nova mãe.'"

Leia mais.

domingo, 28 de setembro de 2008

Eu, um pop star em Haselünne

Não tem coisa melhor do que sair no jornal. Você anda na rua e as pessoas te olham, então você estufa o peito, orgulhoso. Pode ser que elas não tenham lido a matéria e nem saibam quem você é, mas não importa. É o seu dia!

Pois hoje aconteceu isso comigo. Saiu uma matéria sobre mim, escrita pelo jornalista Manfred Fickers, no jornal Meppener Tagespost.



É que há um programa para pessoas que querem arriscar a vida fazendo testes com equipamentos perigosos. Normalmente, os testes são feitos por estrangeiros, porque a vida deles não vale muito aqui. Topei participar e estou aí na foto, bonito, voando pelo céu.

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Bem, a verdade agora. Saí no meio do jornal, na seção Locais.


Como sei que a maior parte dos meus amigos e familiares não entende alemão, traduzo a matéria. Diz assim:

Mulheres fora de si por causa de brasileiro

Jornalista não perdoa e pega todas na Alemanha

Loiro, baixo, bonito e sensual, o jornalista Augusto Machado Paim não veio do Brasil para perder tempo. Desde que chegou em Haselünne, tem passado o rodo nas mais lindas divas do nosso país. "No Brasil eu não tinha todo esse mel, aqui me sinto em casa", diz. O jovem é um frisson entre as mulheres da cidade, que gritam histéricas, como se ele fosse um John Travolta das antigas. Com muito bom-humor, ele topou fazer esta foto, imitando o famoso passo de dança do filme Embalos de Sábado à Noite.

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Ok, ok, brincadeira. O texto verdadeiro é este:

Um pouco de futebol arte do Brasil

Jogar futebol é fácil para brasileiro

Augusto Machado Paim, jornalista, 22 anos, é o verdadeiro craque. Não é à toa que veio do Brasil. Semana passada, por exemplo, em um dos treinos, fez dois gols e deu um passe de letra que deixou o companheiro de time sozinho contra o goleiro adversário. O infeliz, porém, não é brasileiro e chutou para fora. "É necessário e oportuno dizer que nem todos os homens no Brasil tem o dom do futebol. Seja sorte na evolução do tronco familiar, seja inspiração divina, tenho que agradecer por poder mostrar aqui toda minha habilidade", diz Augusto, que surpreende também no discurso, tão diferente do bê-a-bá de sempre das entrevistas futebolísticas. Especialistas no esporte dizem que se o jovem tivesse investido na carreira de jogador ele poderia ser melhor que Diego, ídolo do time do Bremmen, ou mesmo disputar com Ronaldinho Gaúcho a bola de ouro da Fifa. A disputa seria acirrada e justa, pois os dois nasceram na mesma cidade.

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Tá bom, dessa vez não minto mais.Traduzo o texto, aumentando um pouco aqui, reduzindo um pouco ali, em função da tradução. Qualquer erro é desculpado por se tratar de uma reportagem em alemão. E ah, sim, o jornalista também me entrevistou em alemão, diga-se de passagem, então as informações não são beeeem precisas. Em todo caso, me senti refletido na matéria, o principal sobre mim está ali. Algumas observações e correções ponho como notas ao fim do texto. Bem, lá vai:

Idéias de Emsland (1) para o Brasil 

Jornalista faz comparações

Não só para aprender alemão veio para Haselünne o brasileiro Augusto Machado Paim, que participa do programa de Aupair e fica aqui por um ano. O jornalista quer fazer comparações entre os dois países para o webjornal de um instituto cultural (2).

Ele tem 22 anos, concluiu a faculdade no ano passado, trabalhou depois para um instituto cultural em São Paulo (3), cidade de milhões de habitantes, e estudou alemão dois anos e meio no Goethe-Institut de lá (4). “Muitas pessoas no sul do Brasil têm ascendência alemã“, diz Machado Paim. Ele é natural do estado do Rio Grande do Sul, fronteira com a Argentina.

O foco do seu trabalho é a cultura, mas no jornal na internet outros campos são trabalhados, como a vida social. Machado Paim se propôs a pesquisar esses temas em Emslamd a partir do próximo mês e então dar sua contribuição.

Lixo e pobreza

Um dos temas é a economia do lixo. No Brasil existem mais depósitos de resíduos e pessoas que assustadoramente fazem seu sustento a partir deles. O jornalista tem observado nosso sistema altamente técnico, que evita ao máximo a poluição ao meio ambiente. Existem muitas perguntas que ele procura resposta. Sua meta é apresentar para discussão no Brasil essas soluções que existem em Emsland.

Outro tema é a pobreza. Em função de um trabalho, Machado Paim esteve apurando em favelas no Rio de Janeiro (5). A família com quem ele mora em Haselünne tem dois irmãos que tal como foram adotados de uma favela (6). Aqui o jornalista aprende como funciona uma adoção internacional no Brasil e na Alemanha.

Uma grande diferença o jornalista já notou. “No Brasill, os problemas sociais são vistos na maior parte da população.“ A rede de trabalho pública e estatal, que ajuda pessoas em situação de calamidade na Alemanha, impressiona-o. Por quê, porém, também no nosso país existem pessoas pobres, é uma outra pergunta, que ele quer descobrir a resposta.

Legenda da foto: Augusto mostra sua terra natal no mapa-múndi (7).

Notas:
(1) região da Alemanha onde circula o jornal.
(2) o Manfred se refere ao site da revista Continuum, do Itaú Cultural, para o qual faço alguns trabalhos, e ao FIZ TV, webtv da Abril, de cujo programa de jornalismo chamado Fiz + Sotaques participo com jornalistas de outros estados. Acho que ele misturou os dois projetos numa coisa só.
(3) novamente uma citação ao Itaú Cultural, para o qual faço freelas de vez em quando, sem vínculo empregatício. Quer dizer, nunca morei em São Paulo.
(4) estudei no Goethe de Porto Alegre.
(5) posei uma noite no complexo de favelas da Maré e passei uma tarde no morro do Vidigal, em setembro de 2007.
(6) Iládio e Benedito viviam num abrigo em Fortaleza. A mãe biológica mora num favela. Em breve conto melhor a história da família com quem estou aqui em Haselünne.
(7) a legenda especifica ainda onde fica esse grande mapa-múndi, mas isso é difícil de explicar e pouco importante de saber. Basta dizer que estão construindo um parque de diversões no local.

***

Última observação: relendo a matéria traduzida, vi que ela parece ser escrita por um alemão falando português. Pois eu, um brasileiro traduzindo do alemão, produzo o mesmo efeito, se traduzo palavra por palavra. Daí que optei por adaptar algumas partes do texto a como ele seria escrito se o autor fosse brasileiro. Claro que muitos sentidos se perdem, principalmente porque eu não tenho domínio pleno do idioma e não entendo tudo. Em todo caso, traduzir acarreta nesse monte de questões mesmo, não importa o idioma.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Cultura milenar


Faz tempo que procuro nessa foto alguma informação visual que diga que ela não foi tirada há cinco ou mais séculos. Por favor, se você encontrar, me avise. Até as casas e as ruas remetem ao passado. Acredito que apenas pelo fato de ser uma foto sabemos que é atual. Quer dizer, a fotografia, enquanto técnica e arte, não é tão antiga assim.

Tirei a foto há uns dez dias, durante uma bonita festa que ocorreu aqui em Haselünne.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Saudade do Mike!

Uma homenagem ao meu amigo Mike, que tem feito muita falta por aqui:



Esse pub fica na cidade de Meppen, bem pertinho de Haselünne, onde estou morando. Mas não se sinta o máximo, Mike, porque eu também sou uma marca por aqui. Olha:


Eu sei, meu nome aparece no lixo, mas Augustin é uma empresa bem famosa. Trabalha com quase todo o processo de triagem, recolhimento e reciclagem na região. Já está valendo, portanto!

E também tenho meu nome num barco.

sábado, 20 de setembro de 2008

O misterioso caso dos ladrões do lixo, o automatismo das coisas e outros causos e observações sem muita relevância

Sempre há muita coisa para dizer, e normalmente esqueço, principalmente agora que uso internet só 2 ou 3 vezes por semana, em lan house. A partir de janeiro talvez tenha internet em casa, então escreverei mais vezes neste blog.

Agora, porém, faço uma tentativa de registrar num único post boa parte das observações, histórias e peculiaridades que vi e vivi até agora.

As casas e os jardins
Quando cheguei na Alemanha, me pareceu que todas as casas eram quase iguais. Comentei isso com a Christine, minha anfitriã. Ela disse que não, não eram todas iguais. Argumentei que o estilo é o mesmo em quase todas elas: tijolos a vista, dois ou três andares, com jardins bem cuidados.


Depois a Christine me explicou que, alguns anos atrás, havia uma lei regulamentando que aparência as casas deveriam ter, um projeto ligado ao paisagismo urbano. Alguém se deu conta porém que era uma bobagem o Estado gerir os gostos das pessoas, e essa lei não existe mais. Por isso já há algumas casas amarelas, por exemplo.



Vale ainda dizer que é impressionante que quase todas as casas, praticamente sem exceção, têm um belo jardim na frente. Parece que há uma preocupação muito grande com isso.


No Brasil, essa não é a norma. Enquanto uma casa pode ter uma frente linda, outra pode ser só grama, e outra um matagal.

Gato consciente
Acredite se quiser, esses dias eu andava pela cidade, quando vi um gato atravessando a rua. Aparentemente um fato banal, como eu mesmo pensei na hora. De repente, porém, me dei conta que ele atravessava na faixa de segurança.

Onde estava a máquina fotográfica nessa hora? Naturalmente, em casa. Até pensei em montar uma foto mais tarde, com um gato qualquer, mas não seria a mesma coisa. Perdi uma baita foto.

O automatismo das coisas
Uma das primeiras observações que fiz quando cheguei na Alemanha é que há muito mais automatismo na vida cotidiana, nos afazeres domésticos. Quase todas as casas têm, por exemplo, uma máquina de lavar louça, e os apetrechos para usar no aparelho são vendidos em todos os supermercados em abundância. Dentro de casa, tudo é mais fácil de fazer. O esfregão pra limpar o chão tem um mecanismo (não-eletrônico) em que você pisa e o pano está solto, não há necessidade de se abaixar. A cafeteira da casa da Christine funciona com uns envelopes prontos, na medida certa para uma ou duas xícaras, que você só põe na máquina, liga, escolhe a quantidade e espera (isso não existe, porém, em todas as casas).

Cortar grama aqui é de uma facilidade absurda. Mesmo na casa da Christine, com um jardim gigante e uma máquina velha. A grama cai dentro dum saco e você leva com um carrinho de mão para jogar fora. E existem máquinas novas bem melhores, em que você até corta a grama sentado.

Nos supermercados, há máquinas para coletar garrafas plásticas. Você põe ali no buraco, um laser reconhe e puxa. Se é de material diferente do que se coleta, a máquina devolve. Ao fim, você aperta o botão e recebe ¢ 0,25 por garrafa para usar em compras.

A maioria dos aparelhos eletrônicos que se usam aqui existem também no Brasil. A diferença é que na Alemanha quase todo mundo tem, ao passo que, no Brasil, só uns poucos privilegiados. E não que se trabalhe menos aqui não, muito pelo contrário. Apenas o trabalho é otimizado e se faz muito mais coisa em menos tempo.

Kaputtes Auto
Indo jogar a grama fora, encontrei este carro abandonado no meio do matagal:


Fiz questão de fotografar porque, além de uma ótima composição, as imagens sucintam várias perguntas. Como o carro foi parar aí? A quem pertencia? Há quanto tempo está abandonado? O que aconteceu com as pessoas que estavam nele? Sem falar nas metáforas e oposições, tipo produto humano x natureza.

E por aí vai…

Sem vitrines
Uma das coisas mais curiosos da região onde moro agora e, portanto, também da cidade de Haselünne, é que por trás de uma porta qualquer na rua, pela qual você não dava nada, pode existir um supermercado, uma biblioteca ou um restaurante. Bem assim: está escrito apenas o nome e o tipo de estabelecimento na porta, então você entra e, SUPRESA!, o lugar é grande, aconchegante, bem cuidado.

Praticamente todo dia descubro um lugar diferente desse mesmo jeito aqui em Haselünne. A última surpresa foi uma loja de departamentos, no sábado. O detalhe é que a loja é enorme, não dá pra entender como há lugares assim numa cidade de só 13 mil habitantes. Loja do mesmo tamanho só há em grandes cidades no Brasil.

Esses dias me dei conta que uma explicação para esse estranhamento pode ser a ausência de vitrines ou, na maioria das vezes, um vitrine pequena. Ou seja, antes de entrar, não vemos bem o que tem dentro do lugar. Daí a surpresa. E por que as vitrines são assim, quando existem? Taí algo que ainda preciso descobrir. Mas me dei conta agora que também quase não existe publicidade nas ruas por aqui. Deve haver uma lei regulamentando tudo isso.



Verein
Existe na Alemanha algo fácil de entender (se você está aqui), mas difícil de explicar. Chama-se Verein. É tipo um clube, onde amigos se juntam para praticar determinada atividade física ou cultural. Praticamente não existe possibilidade de praticar esportes fora desses lugares, essa é uma diferença fundamental em relação ao Brasil.

Vou pegar como exemplo a Sport Verein Eltern, onde treino futebol. Tem dois campos de futebol 11, onde treinam gente de todas as idades, em horários diferente para cada faixa etária. Depois do treino, os adultos bebem cerveja e fumam, se fumante são. Se não, só aspiram a fumaça.

São normalmente dois treinos e um jogo por semana. Sim, pois há campeonatos regulares entre as Verein, tudo muito bem organizado.


No Brasil, eu só teria oportunidade de jogar futebol de campo se eu tivesse mais 21 amigos com a mesma vontade de jogar que eu ou se eu quisesse ser jogador. Se você não é mais adolescente, é muito difícil treinar por treinar, os clubes de futebol são chamados de Escolinhas porque você está lá sempre para aprender algo. Então, se você passou da idade, você faz assim: convida mais um par de amigos, reserva uma quadra, e joga salão ou sete, variando o grau de dificuldade e estresse pra quem está organizando tudo e precisa ligar pra todo mundo e lidar com os pepinos de última hora, como o cara que não vai mais jogar e não avisa. Enfim, se há uma turma fixa, é possível jogar sempre, com regularidade, mas isso não é muito comum. Aqui é o contrário, já está tudo organizado. Você só vai lá e treina. No fim, bebe cerveja, como no Brasil.

Sendo hostil sem querer
É possível ser antipático na Alemanha sem o saber. Pois a Christine me contou outro dia que não é muito amigável ficar de jaqueta dentro da casa de outra pessoa, quando se é visita. Você deve estar se fazendo agora as mesmas perguntas que eu me fiz quando ela me falou isso. Eu estava com uma jaqueta jeans na hora.

Uma explicação que bolei é esta: quase todas as casas aqui tem um sistema de aquecimento interno (sim, porque aquecer o lado de fora da casa daria muito trabalho), então você não passa frio. Se você permanece de jaqueta dentro de casa, mesmo que jeans, é como se você dissesse que o aparelho não está funcionando direito.

Pensando bem, não procede. A Christine disse que dá para vestir um pulôver dentro da casa de outra pessoa. Agora, por que um pulôver, e uma jaqueta não? Vai entender.

A tevê
Paira um mistério sobre o modo como funcionam as redes de televisão na Alemanha, um mistério que a Christine, quando tiver um tempinho, ainda vai me explicar. Há muitos canais, muitos mesmos e, pelo que sei, não temos tevê a cabo em casa. O interessante a dizer por hora é que tevê é tevê, praticamente em todo lugar. Quer dizer, aqui tem tantos programas bobos quanto no Brasil. Tem um tipo Márcia Goldschmitt, por exemplo, em que se faz teste de dna quando a paternidade de uma criança é duvidosa.

Tem um outro canal em que à noite passa um programa de adivinhações bem tosco. O telespectador liga e, se acertar, ganha um prêmio em dinheiro. O detalhe é que a moça que apresenta fica com um short minúsculo e as tetas de fora. Apesar da apelação, ontem senti pena da guria. Ela repetia a todo momento que o prêmio havia sido dobrado, que cada ligação dava direito a duas respostas e, se se acertasse as duas, o pagamento seria de dez mil euros. E ela repetia sempre que atenderia somente mais cinco ligações. E repetia mais. E mais. Por quê? Porque ninguém estava ligando. Nunca vi disso. Se fosse no Brasil, choveriam ligações.

Ler faz bem
Desde a primeira semana na Alemanha, leio histórias para as crianças antes de dormir. Em alemão, claro. No início, eu lia um pouco e perguntava: vocês estão entendendo? Iládio, Benedito e Saboor respondiam que sim. E mais, me disseram que eu leio bem em alemão. Fiquei feliz, mas principalmente por que eles entendiam. Pensei: que bom, porque eu não entendo nada do que leio.

É uma situação muito estranha e nova. A Christine disse que com ela acontece o mesmo, ela consegue ler textos em português para outra pessoa, mas não entende o que está lendo. Com o tempo, a gente vai pegando uma ou outra palavra. Ajuda também o fato de eu ler geralmente Märchen, ou seja, contos de fada, que têm uma linguagem mais simples (e são histórias encantadoras, diga-se de passagem). Também tenho lido para mim mesmo o livro Grimms Fairy Tales, então procuro ler mais tarde para as crianças em alemão a mesma história que li em inglês, o que ajuda um pouco.


Outra situação curiosa é estar num lugar onde todo mundo conversa e você não entende absolutamente nada. Comigo, isso acontece após o treino de futebol, quando o povo senta para beber e fumar. Nos outros lugares costumo entender bem as conversas, ou ao menos o essencial. No treino, se eu entendo uma palavra já é uma vitória. Outro dia consegui entender o trecho duma conversa, me senti o máximo. De vez em quando consigo diferenciar o nome duma pessoa de uma palavra qualquer, também. Que tal!

O misterioso caso dos ladrões do lixo
Num final de semana desses, eu e a Christine fomos a um depósito de lixo jogar fora aparelhos eletrônicos velhos. Os depósitos aqui nem de longe lembram os do Brasil. São lugares para triagem de material, reciclagem, sem mal-cheiro e sem seres estranhos. Pois chegamos lá, estava fechado. Ainda lamentávamos o fato quando, por entre a grade, vimos um cara correr e se esconder lá dentro. Talvez mais de um.

A Christine ficou encucada. Uma semana antes eu tinha visto a mesma coisa com o jornalista Manfred. Estávamos em um outro depósito, também fechado, e gente saiu correndo. Ele ficou surpreso, mas não deu muita bola. Já a Christine ligou para a polícia.

Enquanto esperávamos, paramos o carro num lugar mais afastado, escondido. A rua onde fica o depósito não tem saída, portanto veríamos quando os supostos ladrões fossem embora. Cerca de 20 minutos depois, uma kombi verde surgiu na direção contrária, indo ao depósito. Anotamos a placa. Certamente os homens estavam roubando metal, que vale bastante aqui, e a kombi vinha buscar o material. Depois veio outro carro, que voltou bem rápido: era um motorista inocente, que nem nós, que apenas queria deixar algo no depósito. Deve ter se assustado quando viu gente lá.

A seguir, a kombi foi embora, só com o motorista. Achamos que os ladrões deviam estar abaixado lá dentro, caso contrário ainda estariam no depósito. Não quisemos voltar para ver. Ainda esperávamos os policiais, quando outro carro veio. O motorista tinha o rosto encoberto por um boné e óculos escuros, claramente procurando não ser reconhecido. Havia mais gente no carro, e a Christine dizia que eram poloneses, pelo tipo físico. Eu fiquei quieto, não entendo nada disso.

Acho que uma hora depois da primeira ligação da Christine para a polícia, enfim os policiais chegaram. Por uma questão de sorte ou azar, dependendo do ponto de vista, chegaram quase junto com o carro de poloneses, que certamente vinha buscar os comparsas. A Christine falou com os policiais, deu-lhes número de placa e outras informações, e então fomos embora para casa, embora estivéssemos curiosos para saber se era tudo imaginação nossa ou era mesmo verdade.

Dias mais tarde, soubemos que a polícia prendeu duas pessoas depois que saímos. Ajudamos a resolver o caso.

domingo, 14 de setembro de 2008

Escócia

Não conheço a Escócia ainda, mas tive a oportunidade de ver um cara tocando fole ontem, numa bonita festa que fechou o centro de Haselünne. Veja: