sexta-feira, 24 de outubro de 2008

A palavra que eu mais sei em alemão

Curiosos são os caminhos que nos conduzem no aprendizado de um novo idioma. Curiosos mesmos. Pois, no aprendizado do alemão, esses caminhos me levaram a concluir que hoje a palavra que eu mais sei em alemão é Biber (lê-se "biba"). Ou seja, "castor".

Nas minhas primeiras semanas aqui na Alemanha, quando eu ainda estava muito concentrado na tarefa de aprender alemão, eu parei uma vez para assistir a um programa de tevê sobre animais. Não entendia nada. Então, de repente, ouvi um som que me pareceu ser uma palavra. O som era "biba". Achei engraçado. Entendi que se tratava do nome do animal que aparecia na tela. Repeti em voz alta. As crianças riram. Re-repeti. Tri-peti. Pois na minha cabeça estava claro: nunca mais ouviria nem usaria essa palavra.

E eis que hoje, mais de dois meses morando na Alemanha, posso dizer que essa foi a palavra que mais eficazmente aprendi. Sim, porque já li, ouvi e falei uma porção de vezes depois disso. E em contextos diferentes.

Como assim? Não sei explicar. Só sei que "Biber" sei.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Os caminhos que levam a boemia

Nunca esqueço da frase que virou marca do meu grande amigo Mike*, nº 1 do Colégio Militar nos tempos áureos da adolescência em Santa Maria e hoje estrela da noite em Caxias do Sul: "quem quer dá um jeito." A frase ganhou amplitude ao se tornar fato na Alemanha. Pois, morando numa cidade de 13 mil habitantes, parecia impossível encontrar vida noturna por aqui, coisa que eu procurava.

Então, perguntando aqui, perguntando ali, fui parar no C'est la vie**.

O C'est la vie é um bar que está quase sempre cheio, ou seja, quase sempre dez pessoas. Parece pouco, mas é melhor do que o outro que eu freqüentava e achava ser o único. Quando a Lu esteve aqui, fomos nesse outro tomar umas cervejas. Bem apresentado, com ar de pub irlandês, o bar realmente causava uma boa impressão, apesar de ter pouca gente. Fui lá algumas vezes. Aí, depois que a Lu veio, eu todo prosa fui comentar com um companheiro do treino de futebol aonde eu tinha levado a amiga brasileira que viera me visitar. Ele não conseguia entender que lugar era. Destruindo o idoma alemão aqui, detonando acolá, ele chegou à conclusão que era o C'est la vie. Como eu não sabia o nome do bar, disse "ja, ja" ("sim, sim") e segui conversa. Depois, num dos inúmeros passeios de bicicleta que faço diariamente, passei na frente do tal C'est la vie e vi que era outro bar. Passei na frente e parei.

Esse agora é o meu point em Haselünne. Digo "meu", porque sei que para os haselünnenses de plantão é um barzinho a mais, como um boteco qualquer que um estrangeiro conhecesse em Santa Maria-RS. Em todo caso, foi no C'est la vie que tive meu primeiro papo de bêbado em alemão, algo tipo incronpreensível. Eu estava sentado no balcão, vendo um jogo da Super Liga, quando um bêbado bem bêbado me interpelou pela esquerda. Ele arranhava um inglês, mas, bêbado que estava, falava alemão pior que eu, apesar de ser alemão. Nem a garçonete entendia. Como se não bastasse, me perguntou umas quatro vezes de que país eu vinha, sendo que eu já havia respondido e ele tinha entendido. Como se não bastasse - parte 2, outro bêbado, amigo do primeiro e tão bêbado quanto, me interpelou pela direita. Me senti em casa.

Não entendi nada, mas achei muito produtivo. Rendeu um papo com a garçonete, que intermediou a conversa, servindo de tradutora. Eu entendia tudo que ela falava, e ela ignorava os bêbados que nem eu, então tudo ficou mais fácil.

Já sei que voltarei ao C'est la vie mais vezes. Fazer o quê? É a vida...

***

* A Lu, que também foi aluna do colégio militar e na época admirava o Mike, dois anos mais velho, me explicou aqui em Haselünne que essa era uma frase comum da escola. Perdeu assim o glamour, mas ganhou em efeito ao ser usada pelo Mike.

** Sei que o ideal é deixar para o leitor se dar conta, mas, na dúvida, preciso me exibir: que rima fiz agora!

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Post para o Betinho

Eu e o Iládio no Irgendstraßemauer, também conhecido como Muro de Uma Rua Qualquer. Esse famoso ponto turístico europeu fica na cidade de Lübeck, perto do Mar do Leste, na Alemanha.

domingo, 19 de outubro de 2008

Multimidialidade máxima

Aprendi no ano passado, durante a oficina de criação literária do escritor Luis Antonio de Assis Brasil, que é sempre melhor mostrar do que dizer.



Fiz essa entrevista para um especial do programa Fiz + Sotaques (tem um link na coluna à direita deste blog. Se quiser saber mais, clique lá).

Essa edição do Fiz + Sotaques ainda vai ao ar, aguarde que aviso! Importante agora é mostrar, em vez de dizer, quem são Christine, Iládio e Benedito. Ah, sim, faltou o Saboor. Bem, veja agora:



Preciso dar os créditos. A entrevista foi feita pelo minijornalista Benedito da Silva Hoffmeister, que fala português e alemão.

sábado, 18 de outubro de 2008

Tem um lago em Haselünne!

Para algums coisas, não há explicação. Faz dois meses que estou aqui, já recebi visita da Lu e tudo o mais, e até terça-feira não sabia que havia um lago enorme e lindo quase ao lado de casa. Bem pertinho mesmo.

Questionada, a Christine se esquivou: "Nós não tínhamos te levado lá ainda? " Não, não tinham. Pedi então para o Iládio me levar, mas ele não estava a fim. O Saboor tem só 7 anos, não podia me ajudar. Minha saída foi seduzir o Benedito, de 9. Negocia aqui, negocia ali, depois de uma hora ele disse: "ok, te levo lá."


Não era um caminho novo. Apenas pegar à esquerda no passeio para bicicletas que leva à quadra de tênis e, de repente, ver um baita lago surgir do nada.

O lugar era lindo, e o guia era bom. Eu e Benedito tiramos uma porção de fotos e prometemos voltar lá mais vazes para fazer piqueniques.





À certa altura, vimos uma bifurcação. Calejado que estou em saber que toda bifurcação reserva uma surpresa, convenci Benedito a pegar à direita. Fomos dar nesta "biblioteca" em meio à floresta:





Antes de ir embora, pegamos um cogumelo para fazer um chá.
Mentira! Diz que é venenoso, e eu não quis provar. Quero viver para ter mais surpresas em Haselünne.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Pegadinha do Malandro

Ontem, eu e o Iládio, de 11 anos, conversávamos na cozinha, enquanto eu lavava louça. O assunto era sério: ele tivera uma discussão com a professora e pensava agora em como pedir desculpas. Oscilávamos entre duas alternativas: ou fazer uma carta, ou gravar um vídeo. Foi então que eu disse: "Iládio, muitas vezes o mais simples é também o melhor." Estendi-lhe a mão, olhando-o nos olhos. Ele entendeu o recado e apertou minha mão. Porém, em vez de dizer "desculpa, professora", Iládio berrou: "Augustoooooooooo". Ele ficou com a mão toda ensaboada, e eu ria sem parar até muito tempo depois.

domingo, 12 de outubro de 2008

Lu em Haselünne

Antes de mais nada, olhe este singelo vídeo:


Não tem como explicar minha faceirice. A Lu, amiga e colega de tantas andanças, veio me visitar aqui em Haselünne, diretamente de Londres, onde está morando agora. Saiu de uma das principais cidades do mundo para uma que nem os alemães conhecem. Só para me ver.

Ela chegou na quinta de noite. Sexta, tivemos este dia totalmente zen:


A Lu ficou amiga do Saboor, 7 anos, que é afegão e mora aqui na casa. O pequeno ganhou um ursinho de presente dela. Adivinhe o nome que recebeu o ursinho? "Urso Lu". Ou "Lu Bär", em alemão.

À noite, fomos tomar uma cerveja no talvez único bar que tem na cidade. Aliás, a Lu tomou uma, eu tomei umas quantas. No fim, fizemos um vídeo, em homenagem aos amigos e colegas do curso de Comunicação Social da UFSM. Tivemos problemas técnicos e o áudio deu pau, então transcrevo abaixo o que foi dito. O importante é mostrar que lembramos do povo!



No trecho inicial, em alemão, eu olho o cardápio e filosofo sobre Schoppenhauer, Freud e o Marxismo, sem deixar de citar Michael Schumacker, Beckenbauer, Ballack e os chocolates Neugebauer. Depois da explanação, digo, em português:

- Eu quero beber bastante, pois estou sozinho aqui, no interior da Alemanha. Meus amigos todos no Brasil, e eu sozinho neste bar. Vou beber para me emborrachar, até que surja uma pessoa especial que venha me visitar... Quem sabe... Ó, Lu, você por aqui!

- Eu estou aqui, Augustinho!

- Uau, para me salvar desta solidão no sul da Alemanha...

- Norte!

- No norte da Alemanha! Estou bêbado já...

- Eu vim te salvar, Augustinho!

- Uau... De Londres para o mundo! Ou para o interior do mundo... - Falando para os colegas, agora: - Pessoal, a gente está morrendo de saudade de vocês, e estamos fazendo esse encontro em nome de todo mundo.

- A gente está pensando em vocês toda hora!

- Vocês não estão aqui, mas são nossos assuntos! Estou morrendo de saudade de vocês. Mando um abraço pela Lu, porque ela vai antes de volta para o Brasil.

- Eu vou contar todas as novidades do Augustinho.

- Não, todas não, pelo amor de Deus!

- Todas que eu soube hoje!

- Saudade, pessoal! Até mais!

- Beijos!

E foi isso. No sábado de manhã a Lu foi embora, de trem, para outra cidade na Alemanha, onde moram parentes dela. Eu voltei para casa e encontrei Saboor tomando café da manhã com o urso Lu ao lado. Depois fiz judô, levei Iládio para o jogo de futebol dele e depois fui jogar eu mesmo com os veteranos, como contei ontem. A rotina, de novo. Uma rotina boa, claro!

Foi muito legal este final de semana.