sábado, 26 de março de 2011

PRESS RELEASE

Curso de Extensão:

Reportagem em Quadrinhos

Desenho de Maumau

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O quê: curso de reportagens em quadrinhos

Com quem: Augusto Paim, jornalista cultural e escritor

Quando: quintas-feiras, das 14h às 18h, de 5 a 26 de maio

Onde: PUC RS

Inscrições: até 29 de abril

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Quer aprender a trabalhar com um novo gênero do jornalismo que é uma tendência seguida por jornais como a Folha de São Paulo e o argentino La Nacion? A Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) oferecerá em Porto Alegre um Curso de Extensão inédito sobre reportagens em quadrinhos. Serão 20 horas-aula, divididos em quatro encontros, sempre às quintas-feiras, a partir do dia 5 de maio. A proposta é unir teoria e prática: os alunos não só serão estimulados a refletir sobre o uso da linguagem dos quadrinhos no jornalismo, como também participarão de uma sala de redação visando à produção de reportagens nesse formato.

O curso é aberto para estudantes da PUC e para o público em geral. Não é exigido ter conhecimentos de quadrinhos. Também NÃO é necessário saber desenhar: para fins didáticos, serão usadas fotografias. No curso, o aluno aprenderá ainda sobre a escrita de roteiros e o uso de técnicas narrativas, que podem ser aplicadas em qualquer linguagem – especialmente no cinema, que têm muitos pontos em comum com os quadrinhos, haja vista que todo filme começa com um roteiro e um storyboard.

O Jornalismo em Quadrinhos surgiu na década de 1990, com os livros-reportagens sobre conflitos bélicos do jornalista maltês Joe Sacco. Já no século 19, no entanto, havia experiências nesse formato. Agora surge uma nova geração internacional de HQ-repórteres e de veículos especializados, como http://www.cartoonmovement.com/ e o http://www.newsmanga.com/, este último uma experiência pioneira com mangás jornalísticos diários. Veículos tradicionais também têm publicado reportagens em quadrinhos, haja vista que essa pode ser uma saída para impedir o fim do jornalismo impresso, ao atrair novos leitores de jornais. O gênero também tem sido trabalhado em biografias e outras formas de não-ficção em quadrinhos.

Para saber mais sobre o Jornalismo em Quadrinhos, a sua história e a nova safra de HQ-repórteres, leia esta reportagem publicada na edição de março da Revista da Cultura.


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Objetivos do curso: incentivar a reflexão sobre o gênero Jornalismo em Quadrinhos a partir da experiência prática; estimular a produção de reportagens em quadrinhos por meio de orientação especializada; qualificar a produção e a reflexão teórica sobre Jornalismo em Quadrinhos através da introdução e aprofundamento do tema no ambiente da Graduação.

Ementa: a linguagem dos quadrinhos aplicada ao jornalismo; a pauta, a apuração e a edição no Jornalismo em Quadrinhos.

Pré-requisitos: nenhum. Apenas são recomendáveis conhecimentos prévios sobre jornalismo em geral.

Programa

Aula 1 - Palestra "Elementos da Narrativa em Quadrinhos" + reunião de pauta

Aula 2 - Apresentação das apurações + decupagem dos temas

Aula 3 - Roteiro + Edição

Aula 4 - Apresentação das reportagens + Avaliação

Ministrante do curso: Augusto Paim é jornalista cultural, escritor e tradutor. Atualmente, cursa o Mestrado em Teoria da Literatura na PUC RS e trabalha como jornalista cultural freelance. Já publicou reportagens nas revistas Continuum, Norte, Aplauso e Revista da Cultura. Em 2009, traduziu para o português o livro Johnny Cash - uma biografia, premiada obra do quadrinista alemão Reinhard Kleist. Em 2010, foi curador e organizador do I Encontro Internacional de Jornalismo em Quadrinhos. No mesmo ano, fez uma reportagem em quadrinhos sobre o Esporte Clube Juventude, com a quadrinista Ana Luiza Koehler. Agora trabalha em uma reportagem em quadrinhos sobre o Complexo de Favelas da Maré, no Rio de Janeiro, para o site Cartoon Movement. Desde 2007, ministra palestras sobre quadrinhos em escolas e universidades. Mantém os blogs http://www.cabruuum.blogspot.com/, sobre HQ, e http://www.augustfest.blogspot.com/, sobre jornalismo e literatura.

Resumo das informações

Carga horária: 20 horas-aula.

Período: De 05 a 26 de maio.

Dia e horário: quintas-feiras, das 14h às 18h.

Datas: 5, 12, 19 e 26 de maio de 2011.

Local: PUC de Porto Alegre

Vagas: 15 a 20.

Investimento: R$ 572,23, para o público em geral; R$ 515,00, para alunos, diplomados, professores e funcionários da PUCRS.

Inscrições: até 29 de abril.

Onde se inscrever: Av. Ipiranga, 6681, Prédio 15, sala 112, telefone (51) 3320 3727.

Outras informações: com o ministrante Augusto Paim (augusto.paim [@] gmail.com) ou com o coordenador Luciano Klöckner, no telefone (51) 3320 3727, de segunda a sexta-feira, das 8h às 21h15min.

terça-feira, 8 de março de 2011

Os filhos de Joe Sacco

Escrevi, para a Revista da Cultura, uma reportagem sobre o crescimento internacional do Jornalismo em Quadrinhos. O material foi publicado na edição de março. Começa assim:



Para continuar lendo, cutuque aqui.

terça-feira, 1 de março de 2011

A morte do trovador

Criei o conto abaixo especialmente para a antologia do próximo FestiPoa Literária, que ocorrerá entre final de abril e início de maio, em Porto Alegre. A maior parte do texto eu escrevi quando estava hospedado em um hotel em Assunção, Paraguai, no início da semana passada. A história baseia-se num fato real ocorrido em frente ao Theatro São Pedro, em 2 de setembro de 2009. O escritor e editor Beto Frizero, que presenciou a cena, fez uma tocante descrição desse episódio. Ela pode ser lida aqui. Quem estiver atrás de informações, pode ler esta notícia esclarecendo o que o ocorreu. Esse foi o fato inspirador da narrativa, que naturalmente não se atém à mera realidade.


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A morte do trovador

As situações mais comoventes da vida ocorrem no teatro. A realidade apenas choca, não nos emociona.

Isso tudo penso eu agora, sentado na tua frente, racionalizando acontecimentos da minha infância. Naquele dia em que mamãe e papai me levaram à ópera, eu não pensava assim.

Lembro muito bem. Era estréia de Il trovatore. A fila era imensa e, no longo tempo em que nela aguardávamos, eu observava eufórico a vida ao meu redor. Tudo era novo aos meus olhos. Casais de braços dados em aparente harmonia (hoje sei que era apenas “aparente”), moças em vestidos de verão trocando olhares com jovens universitários, crianças correndo sem direção... Havia também o pipoqueiro na esquina, com seu avental engordurado, a gritar, em dupla função, o preço dos últimos ingressos. Eu estava atento a cada detalhe, estava em meio a uma nuvem de novas sensações. Ainda hoje recordo o milho esquentando no óleo, um aquecimento lento seguido de súbita explosão: então o grão se tornava outra coisa, branca, quente, gostosa.

Isso tudo, repito, penso hoje, analisando os fatos aqui na tua frente. Na época só me interessava o movimento, a vida, a estreia. A pipoca.

Bati palmas quando o porteiro autorizou nossa entrada. A multidão avançava devagar. Para mim, cada passo era um terreno conquistado na jornada rumo a um território inexplorado. Encontramos nosso assento. Soou o primeiro sinal, depois o segundo e o terceiro. Abriu o pano.

Aquela foi uma noite inesquecível. Se eu fechar os olhos agora, ainda posso ver os ferreiros reunidos no acampamento cigano nas montanhas de Biscaia, posso ouvir suas marteladas enquanto cantam em coro “Chi del gitano i giorni abbella? Chi del gitano i giorni abbella...” Às vezes me surpreendo de olhos fechados em filas ou salas de espera, mexendo as mãos como se estivesse a reger os músicos. Como esquecer os cenários, como esquecer a música de Verdi ditando o tom dramático de cada cena! E o que dizer da cigana cantando deitada! Hoje sei da dificuldade de se cantar nessa posição, conheço a técnica, os detalhes, mas naquela época eu apenas vibrava com a ópera como se eu fosse a corda de um dos violinos. E o enredo! Como não se deixar envolver com a disputa entre o Conde e o trovador Manrico pelo amor de Leonora! E como é terrível a revelação feita pela cigana Azucena, revelação aliás que desencadeia todo o enredo trágico da história. Como é terrível!

Sou capaz de recordar mesmo agora cada detalhe de cada cena de cada um dos quatro atos. Mas a lembrança mais vívida é do final: o assassinato de Manrico. Essa foi a primeira morte da minha vida. Quando os soldados da guarda o seguraram, um de cada lado, e a espada do Conde atravessou-o no peito; quando Manrico arregalou a boca e começou a dobrar os joelhos, a vida lentamente deixando seu corpo, ao mesmo tempo em que o Conde descobria, através da cigana, que matara o próprio irmão; quando tudo isso aconteceu, senti como se fosse eu ali sendo apunhalado no palco. Pudera, naqueles quatro atos, eu havia me tornado amigo de Manrico, em poucas horas ele passara de um completo estranho para uma pessoa que eu reconhecia como um ente querido, alguém que partilhou sua intimidade comigo. Sim, aquela espada atravessou o meu peito. Sofri, ah, como eu sofri com a morte de Manrico! Nunca antes eu havia presenciado a morte de um homem.

Acho que a ferida até hoje não cicatrizou. Principalmente por causa do que ocorreu depois.

Mamãe e papai também ficaram eufóricos com a ópera. Gostaram tanto que, para o meu deleite, decidimos voltar na segunda noite. Dessa vez, em função da boa repercussão da estreia, havia muito mais gente. Uma ameaça de tumulto flutuava no ar, indo e voltando a todo momento. Estávamos todos espremidos na fila. Lembro que, de tempos em tempos, o pipoqueiro gritava:

— Últimos ingressos! Aqui comigo, os últimos!

Aos cochichos, as pessoas comentavam a insanidade de se vender mais ingressos. Como fazer para colocar toda essa gente lá dentro? De fato, havia muito mais pessoas do que a capacidade da casa, tanto que a direção do teatro liberou a entrada de apenas parte do público. O resto esperava lá fora, enquanto se acrescentavam cadeiras nas laterais.

Na rua, a fila não parava de crescer. Enquanto esperávamos, eu me punha a olhar em volta. Tudo era diferente no segundo dia. Os casais estavam em silêncio, os pais demonstravam impaciência e, como naquele calor até mesmo os vestidos das moças ficavam suados nas costas, ninguém flertava.

Lá pelas tantas vi se aproximar, vindo de uma rua adjacente, um homem todo encasacado, roupas de couro inclusive, as mãos dentro da jaqueta. Fiquei acompanhando seu movimento pela rua. Ele me parecia tão deslocado com aquela vestimenta que, em minha fantasia, comecei a imaginá-lo como um personagem da ópera. Na minha cabeça, vi-o correr até a entrada do teatro, sacar uma espada que trazia escondida na jaqueta de couro e, com voz de tenor, exigir que as portas fossem abertas e o acesso liberado. Após uma brava luta de espadas, ele teria seu êxito. Cantando, claro, e com música de orquestra ao fundo.

Fui desperto do devaneio por um súbito agito. Abriu-se um túnel em meio à multidão. O homem avançou no vazio com passos decididos. Agora ele trazia uma das mãos fora da jaqueta. Essa mão segurava um revólver.

O pipoqueiro estava de costas, distraído em seu labor. Não percebeu nada. O homem de jaqueta encostou-lhe o cano da arma nas costas. Sussurrou algo. Atirou. Saiu em disparada.

O mais estranho eu só reparei depois: ninguém escutou o barulho do tiro, porque exatamente no mesmo instante tocou o primeiro sinal da ópera. Não houve tempo para mais nada. O porteiro liberou a entrada, e os que vinham atrás de nós nos empurraram para adiante. Ainda consegui lançar um olhar para trás e vi que um pequeno grupo de desistentes da ópera fazia um círculo em redor do pipoqueiro. Ele jazia estirado no chão.

Dessa vez, não prestei atenção na música, nem no cenário, nos personagens ou no enredo. Só pensava no corpo do pipoqueiro lá fora. Repassava a todo momento em minha cabeça o instante da sua morte, como que para confirmar que era real o que eu presenciara. Um único tiro, apenas um tiro seco. E então a queda. O homem que atirou fugiu tão rápido quanto veio, deixando inexplicada aquela morte. Já o pipoqueiro morreu sem técnica, sem marcação, sem nenhuma deixa nem trilha ao fundo. Morreu de improviso. Friamente, sem emoção.

É como eu disse: as situações mais comoventes ocorrem no teatro. A vida apenas choca, não nos emociona.

Ok, ok. Sei que nosso tempo está acabando. Podemos continuar falando sobre isso na próxima sessão. Bem, até logo.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Novas narrativas_upgrade 2

Um dos melhores retornos que se pode ter com uma reportagem (cujo trabalho é sempre um processo solitário) é receber depoimentos de leitores que acrescentam informações, enriquecendo o saber sobre o tema. Minha última reportagem teve essa honra. Destaco aqui dois comentários que são uma espécie de upgrade ao tema da pauta.

Ludmila:


"Olá, tudo bem?

Li essa matéria sobre o Hipertexto hoje, confesso que tal assunto me fascina muito. Gostei de saber que no Brasil também tem dado seus passos nesse tipo de literatura.

Senti falta, no entanto, de nomes pioneiros nessa área, como Raymond Queneau, criador do OuLiPo e autor de Cent Mille Milliards de Poèmes [o livro não foi esquecido, apenas foi citado em outro post no Cultura News, mais exatamente neste aqui], ou de Georges Perec, também membro desse grupo, e autor de A vida modo de usar, publicado em 1978, que assim como Afternoon traz histórias que se entrecruzam e se remetem. Esses são só alguns exemplos de uma literatura hipertextual que já existia antes de 1987. Inclusive, os livros de Calvino que você menciona fazem parte da fase oulipien do escritor, juntamente com As Cidades invisíveis.

Extremely lound and Incredubly close
do Foer, já foi traduzida, sim, para o português, o que ainda não foi e acredito que nem será é seu novo livro, o delírio de qualquer apaixonado por essa literatura, Tree of Codes que é inspirado em Rua dos Crocodilos de Bruno Schulz e tem um formato ousado mas ainda similiar ao livreto de poemas do Queneau.

Acho esse assunto extremamente apaixonante, curioso e é muito bacana poder dialogar com alguém que também nutra esse tipo de interesse.

Abraços e parabéns pela matéria."

Paula Mastroberti
:

"Olá, Paim. Li sua matéria na Revista. É um assunto que não só me fascina, como faz parte de minha pesquisa de doutorado. Além disso, também sou uma escritora que trabalha narrativas híbridas há algum tempo. Apenas trabalho para uma área na qual esse jogo é considerado natural: a literatura juvenil. Sobre isso, eu gostaria de acrescentar às suas suposições que, além da influência recente dos suportes plurimidiáticos na literatura contemporânea, é preciso ressaltar a influencia do livro infantil e juvenil na formação de gerações de escritores (eu inclusive) desde a invenção do livro-brinquedo e dos chapbooks na Inglaterra vitoriana. Não tenho dúvida de que o germe de uma literatura que integra design, efeitos gráficos e imagens, mesmo antes dos quadrinhos está no histórico da produção editorial dirigida à infância (estágio pelo qual todos passamos). Comprovadamente, o livro infantil não só soube explorar, muito antes do adulto, os recursos tecnológicos de impressão desde o século XIX, mas foi também o catalisador principal do desenvolvimento do design de livros e sua exploração estética. Abraço."

Música paraguaia

No dia 22 de fevereiro, terça-feira, estive no Teatro Municipal de Assunção. No palco, cinco artistas paraguaios cantaram músicas autorais que têm tudo a ver com a cultura do país. Não fiz gravações dessa apresentação, mas no youtube pode se encontrar amostras dos trabalhos desses músicos.

No vídeo abaixo, Hugo Ferreira canta canções de protesto.



Abaixo, Victor Riveros demonstra muita técnica para cantar músicas em guarani. Dificílimo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Novas narrativas_upgrade

O texto abaixo, escrito por mim, foi postado no portal CulturaNews como um complemento à reportagem sobre novas narrativas.

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Na reportagem de capa da edição de fevereiro, você viu que as inovações propostas pelas novas tecnologias ou mesmo pela literatura eletrônica têm seus precursores no papel. Um bom exemplo disso é a obra "Cent Mille Milliards de Poèmes", do francês Raymond Queneau. Trata-se de um livro com dez sonetos, todos eles com o mesma métrica e o mesmo sistema de rimas. Até aí, nada demais. A diferença é que Queneau construiu cada verso de tal forma que todos eles podem ser trocados de lugares. Ou seja, cada leitor monta seu próprio poema em cada ato de leitura.

O funcionamento da obra pode ser visto na prática nesta versão interativa, publicada no site da Universidade Mannheim. Para cada verso, há dez opções, que você mesmo pode escolher. Caso você queira que o poema seja obra do acaso, vale consultar esta outra versão. Você passa o mouse por cima dos versos, e eles começam a se alternar como se fossem uma roleta. Tirando o mouse, a roleta cessa de girar. Nasce um novo poema.

Todos esses exemplos, no entanto, são apenas versões para internet de uma obra que já atravessou quase cinco décadas. Publicado em 1961, o livro de Queneau tem, originalmente, esta aparência.


Suerte!


Com minha mais nova e lindíssima cuia, comprada em Assunção, Paraguai, minhas reportagens passarão a ser muito mais saborosas. A estreia será na semana que vem, quando eu tentarei dar forma no papel a uma semana inteira de apuração sobre a cultura e a arte paraguaias.