sexta-feira, 10 de junho de 2011

Lançando Sá-Carneirinhos

O senhor Sá-Carneiro

Livro recém-lançado em Portugal revela detalhes inusitados da vida do escritor.

Da Redação

Lisboa, maio de 2011. Acaba de sair a biografia não-autorizada de Mário de Sá-Carneiro, escrita pelo jornalista Guilherme de Santa-Rita Neto, autodenominado Santa-Rita Repórter. Para os desavisados: o autor de Contando sá-carneirinhos: a história do menino que pôs a si mesmo para dormir é neto de Santa-Rita Pintor, ícone do movimento futurista em Portugal. Santa-Rita Pintor e Sá-Carneiro eram “inimigos íntimos”, como o próprio Sá-Carneiro descreveu nas suas famosas cartas para Fernando Pessoa. Com isso ele queria dizer que havia uma ligação especial entre os dois, que não era nem amizade nem mero desprezo. De fato, Sá-Carneiro reclama de Santa-Rita Pintor em muitas cartas, mas não deixa também de conviver com ele. Havia um algo mais nessa relação.

Santa-Rita Repórter não admite ter escrito a biografia apenas como vingança, mas afirma: “Sá-Carneiro pintou para o mundo uma imagem do meu avô que não é verdadeira.” E completa: “Nesse sentido, Sá-Carneiro é pior pintor que meu avô.” No livro, Santa-Rita Repórter descreve um Sá-Carneiro desconhecido do público familiarizado com sua obra – inclusive em tópicos deveras polêmicos. “Tudo que está ali é verdade e demandou extensa pesquisa”, garante o jornalista.

A seguir, um resumo do principal conteúdo da obra.


Sabe-se que Sá-Carneiro passou por grandes dificuldades financeiras, o que inclusive o teria precipitado para o precoce suicídio em 26 de abril de 1916. O que não se sabe é de que forma ele buscava conseguir dinheiro. Segundo consta no livro de Santa-Rita Repórter, no início de 1914 Sá-Carneiro chegou a pedir dinheiro aos Correios de Portugal. “O bisneto de um funcionário me mostrou uma carta enviada por Sá-Carneiro para o gerente de uma agência em Lisboa”, conta o autor. Na carta, Sá-Carneiro teria dito que estava escrevendo um livro de cartas e que para isso pedia auxílio financeiro da instituição, a título de patrocínio. Foi nessa época que Sá-Carneiro escreveu a Fernando Pessoa comentando a possibilidade de a sua correspondência vir a lume décadas depois.

O patrocínio não foi aprovado. Coincidência ou não, a partir daí Sá-Carneiro passa a reclamar constantemente nas cartas do atraso no serviço dos Correios.


Sá-Carneiro fez análise! Sim. Ou pelo menos é o que diz o autor da biografia. Segundo Santa-Rita Repórter, no quarto de hotel em que Sá-Carneiro se suicidou foi encontrada uma agenda na qual aparecem marcações semanais sob o signo “sessão hoje – não esqueça!!!”. Surpreendentemente, essas marcações se repetem inúmeras vezes, inclusive no mesmo dia. A recém-publicada biografia de Sá-Carneiro traz um suposto fac-símile de algumas páginas da agenda, onde aparecem esses lembretes junto a uma série de setas e rabiscos. Ali se pode constatar, por exemplo, a incidência intermitente de frases como: “meu pai é meu herói”, “falar sobre o quanto eu gosto da mulher do meu pai”, “hoje acordei futurista, mas vou dormir saudosista” e “Fernando Pessoa não responde minhas cartas: não quero mais ser amigo dele”.

E quem seria o analista? Isso não se sabe, pois não há a citação de nenhum nome, a não ser o das pessoas que aparecem na correspondência. Santa-Rita Repórter aventa a possibilidade de que Sá-Carneiro fazia análise em si mesmo, escrevendo os conteúdos terapêuticos na agenda. Segunda essa teoria, Sá-Carneiro anotava o horário por mero deboche. No entanto, no criado-mudo do quarto do hotel foram encontrados alguns frascos de anti-ansiolítico. O que levanta a questão: como ele poderia ter conseguido o remédio sem receita?


Os hábitos esportivos do escritor. Segundo Santa-Rita Repórter, Sá-Carneiro caminhava diariamente, duas vezes na parte da manhã, e outras três à tarde. A informação não é confirmada; antes foi deduzida por uma história que circula até hoje na agência dos Correios em Paris na qual Sá-Carneiro buscava a correspondência. Fala-se por lá que, entre 1912 e 1916, em vários momentos do dia os funcionários viam Sá-Carneiro passando diante da porta. Depois de certo tempo, chegou-se à absurda conclusão de que Sá-Carneiro fazia suas caminhadas andando em volta da quadra da agência. “Quando chegava o carro do serviço postal, ele parava ao lado dos carregadores para fumar um cigarro e espiar os pacotes”, diz Santa-Rita Repórter. Ainda hoje, na mesma agência em Paris, há quem diga que o fantasma de Sá-Carneiro aparece à noite para bagunçar as cartas.


Um dos maiores mistérios envolvendo a morte de Sá-Carneiro diz respeito à identidade da mulher com quem ele se relacionava aos 25 anos de idade, nos momentos finais da sua vida. Em carta de abril de 1916, Sá-Carneiro diz que essa mulher é uma personagem saída da sua obra literária para a realidade. Sinal de que seria uma mulher imaginária? Não é o que diz Santa-Rita Repórter. Segundo ele, uma carta apócrifa para o amigo José Araújo deixa claro que se trata de uma mulher de carne e osso. Ou melhor: plástico e ar. E orifícios.


O grande mérito de Santa-Rita Repórter é não se ater à pesquisa histórica. Na biografia, ele se preocupou também em entrevistar especialistas de diferentes ramos de conhecimento para tentar descobrir, apenas através da análise da correspondência com Fernando Pessoa, porque Sá-Carneiro se matou. Um especialista na rede hoteleira de Paris afirma que o caso de Sá-Carneiro não era exceção, e que qualquer pessoa que se hospedasse no Hôtel de Nice em 1916 corria risco de suicídio. “Até hoje é um hotel que eu particularmente não recomendo”, diz.

Já um especialista em informática trouxe um motivo inusitado: “o que matou o Sá-Carneiro foi o email!” Ele acredita que Sá-Carneiro teve uma epifania naquele quarto de hotel, quando constatou que no futuro as mensagens seriam instantâneas, acabando com os longos períodos de espera. Mas não seria essa uma invenção boa para alguém tão ansioso? Na verdade, não. Para responder melhor, o especialista lembra que Sá-Carneiro dizia ter saudade do que ele ainda iria viver. “Quando ele pensou na ideia do email, era como se ele já tivesse experienciado a era da internet”, diz. Ele acredita que, na cabeça do Sá-Carneiro, a era da internet acabaria com seu maior prazer – a espera. “Se ele não fosse tão apressado, talvez pudesse prever que a maior parte dos servidores seria mais lenta do que se imagina”, afirma.


O livro encerra com uma hipótese instigante, talvez a mais controversa de toda a obra. E é baseada no fato de que as cartas de Fernando Pessoa para Sá-Carneiro se perderam, com exceção de meia dúzia. “Sei que esta afirmação pode invalidar todo meu trabalho como biografista, mas há indícios fortes de que Sá-Carneiro fosse apenas outro heterônimo de Fernando Pessoa”, diz Santa-Rita Repórter, deixando no ar o questionamento sobre a identidade do homem encontrado morto no hotel.


RESUMO

TÍTULO: Contando Sá-Carneirinhos - a história do menino que pôs a si mesmo para dormir

AUTOR: Santa-Rita Repórter

EDITORA: Nostalgia Futurista (Lisboa)

NÚMERO DE PÁGINAS: 126 p.

PREÇO: 10 euros.


Confira um trecho da obra:

“Muito já se foi dito sobre a relação entre meu avô e Mário de Sá-Carneiro. Conforme o que se lê na correspondência com Fernando Pessoa, parece haver aí muito ódio, como quando Sá-Carneiro diz que Santa-Rita, como editor, é pior que a morte. Com a intenção de lançar luz sobre a natureza do relacionamento entre os dois, revelo aqui um detalhe que pode vir a embasar futuros estudos. Trata-se do invólucro de uma bala de hortelã, que encontrei no baú de recordações do meu avô. No verso, há os seguintes apontamentos: ‘Finalmente aconteceu!!!’, ‘Ontem à noite, Sá-Carneiro, Café-Restaurant de La Régence’, ‘porém, mau-hálito’ e ‘próxima vez: como abordar o assunto?’”


***

Ps.: aviso importante, importantíssimo, para não haver mal-entendidos. O texto acima foi escrito por mim, Augusto Paim, e É UMA FICÇÃO, em forma de paródia de reportagem. Escrevi-o como exercício para uma reunião do grupo de estudos Leitura e Criação Literária, coordenado pelo professor Paulo Kralik no Mestrado em Teoria da PUCRS. O objetivo era criar uma ficção a partir de um personagem real. A atividade teve como ponto de partida a leitura de O senhor Juarroz, de Gonçalo Tavares.

terça-feira, 7 de junho de 2011

O dia em que eu (não) entrevistei Fernando Arrabal


Em abril eu passei muitas semanas agitado em função de uma entrevista com o dramaturgo espanhol Fernando Arrabal. Ele viria a Porto Alegre no dia 1º de maio para uma palestra no SESC. No período que antecedeu a entrevista, eu me preparei exaustivamente. Testemunha disso é meu colega do Mestrado em Teoria da Literatura da PUCRS, o diretor de teatro Daniel Fraga, que foi fundamental na pesquisa, dando dicas e indicando caminhos muito úteis. A ele dedico essa reportagem.

Na véspera da entrevista, eu estava em São Paulo, mas voltei a tempo de assistir à palestra no SESC. Trouxe na bagagem um gravador novo, que eu estrearia no dia seguinte, às 14h, hora do encontro com o Arrabal. Por esse e outros motivos, eu estava empolgado.

A entrevista, no entanto, foi um horror. E se isso foi muito frustrante no início, acabou se tornando um excelente mote para escrever o perfil do entrevistado. Você entende o porquê logo abaixo.

Antes disso: a reportagem foi publicada na edição 47 da Revista da Cultura. Se quiser ler diretamente lá, clique no link vermelho. Aqui publico uma versão estendida, já que em função do espaço o texto precisou ser editado.

Bom, aí vai o:

Perfil facebookiano de Fernando Arrabal

O dramaturgo espanhol parece não gostar de dar entrevistas, apesar de agendá-las. Eis o relato de uma entrevista que poderia ter sido.

por Augusto Paim

No dia 1º de maio, um domingo, Fernando Arrabal palestrou no Festival Palco Giratório, no SESC de Porto Alegre. Naquela noite, o pequeno homem de 78 anos e apenas 51 quilos trajava um paletó chinês preto de estampas com dragões dourados. Uma garrafa de vinho e uma taça semicheia jaziam na mesinha de apoio.

Com um discurso pausado e cheio de silêncios – performático! –, Arrabal discorreu sobre assuntos que volta e meia aparecem em suas falas públicas: sua amizade com grandes nomes da arte do século 20, como André Breton, Samuel Beckett, Picasso e Salvador Dalí; o por ele criado Teatro Pânico; sua adoração por Ruth Escobar; e a censura que sofreu do General Franco.

“Sou um pouquinho célebre porque me emborrachei um dia na televisão”, diz Arrabal a certa altura. Ele refere-se à caótica participação no programa de debates La Noche, da TVE espanhola, em 1989. Visivelmente embriagado, ele interrompia a todo momento a fala dos outros participantes e reclamava que não o deixavam falar. Além disso, cambaleou até cair e foi sentar-se na mesa no centro do cenário. Esse vídeo encontra-se no youtube [assista aqui], assim como outro, de agosto de 2009, que mostra a ida de Arrabal ao Programa do Jô. Lá ele não só cantou e dançou Catito, como também conduziu a própria entrevista, muitas vezes impedindo que Jô fizesse perguntas [assista aqui].

A relação de Arrabal com a imprensa é, no mínimo, confusa. A entrevista em Porto Alegre foi agendada para as 14h da segunda-feira seguinte à palestra no SESC. Arrabal não compareceu na hora marcada: enquanto ele sacava dinheiro em bancos pela cidade, pelo menos três entrevistas tiveram que ser canceladas ou adiadas. Quando finalmente chegou, uma hora depois do combinado, Arrabal sequer sabia se a conversa era para rádio, TV ou impresso. Reclamou de fome e sede e pediu salmão e suco de laranja para a assessora de imprensa.

A primeira pergunta levou um minuto para começar a ser respondida: Arrabal olhava para o repórter com ar de desdém, forçando-o a refazer a questão. A partir daí, passou a falar com longas pausas, ora usando as perguntas como gancho para falar dos assuntos que está acostumado a falar, ora respondendo porém fazendo para isso um grande volteio.

A entrevista foi um fracasso. Foram respondidas apenas algumas das nove perguntas que o repórter havia preparado. De modo que, como o diálogo não ocorreu, o único alento que resta é escrever o perfil de Fernando Arrabal buscando as informações em outros lugares – algo que já foi feito pelo jornalista estadunidense Gay Talese, que na década de 1960 escreveu um célebre perfil sobre Frank Sinatra sem entrevistar o cantor.

Eis abaixo uma lista das nove perguntas que estavam anotadas no bloquinho do repórter. Vão junto os respectivos comentários sobre a origem das questões e, eventualmente, as respostas.

1) Em começos de entrevista, é sempre bom deixar o entrevistado falar sobre um assunto que muito lhe interessa mas sobre o qual não costuma ser entrevistado. Fernando Arrabal fez uma incursão na área do biografismo quando escreveu Um escravo chamado Cervantes – um retrato do criador de Dom Quixote. O mote para o livro é a descoberta de um documento de 1569, onde consta que Miguel de Cervantes teria sido acusado de homossexualismo e por isso condenado, aos 21 anos de idade, a ter sua mão direita amputada – sentença que não se cumpriu porque Cervantes teria fugido para a Itália. No prefácio, Arrabal chama a esse trabalho de “exercício de admiração”. Certamente há pontos de identificação entre biografista e biografado que motivam o surgimento de um trabalho desse tipo. E motivam também a pergunta: “Por que esse ‘exercício de admiração’ por Cervantes? O que o fascina nele?” A esta pergunta, porém, Arrabal respondeu apenas que se interessava na peça de teatro de Cervantes chamada La Confusa. Nada mais.

2) A próxima questão questão está vinculada à anterior. Cervantes é mundialmente conhecido por Dom Quixote, mas considerava La Confusa sua melhor obra. Do mesmo modo, na palestra de domingo, Arrabal falava da sua predileção por Piquenique no front, sua primeira peça de teatro. A diferença entre o que o público lê em sua obra, e o modo como ele mesmo – o autor – enxerga seu trabalho pode ser resumida numa frase dita por Arrabal nessa palestra: “Eu já não sei o que escrevi”. Na segunda-feira, porém, a entrevista acabou antes que a pergunta “Qual é a sua lista de melhores obras suas?” fosse feita.

3) Arrabal se diz um azarado por sua relação com a política. Começou com seu pai, preso durante a Guerra Civil Espanhola e desaparecido após uma fuga. Depois o próprio Arrabal teve sua obra censurada pelo regime franquista – mereceu inclusive um processo, no qual é célebre a carta que Samuel Beckett escreveu em sua defesa. Uma das perguntas da malograda entrevista do dia 2 de maio em Porto Alegre seria: "O senhor já disse em entrevistas que é um azarado. No entanto, não é uma vida de sorte ter sido contemporâneo e, mais do que isso, amigo de gente como Beckett e Dalí?” Na resposta, Arrabal comentou apenas que, na época, nem Beckett nem Dalí podiam prever a dimensão que suas personalidades iriam mais tarde representar na arte do século 20.

4) Fernando Arrabal nasceu no dia 11 de agosto de 1932, em Melilla, cidade espanhola no Marrocos. Ainda criança foi morar em Madri e, em 1955, mudou-se para Paris, onde fez seus estudos e onde vive até hoje. “Sou da terra do desterro, da terra do teatro”, havia dito Arrabal no domingo. Então, cabe a pergunta: “Qual é a sua pátria?” A entrevista, no entanto, acabou antes dessa questão ser formulada. Devido ao insucesso evidente do entrevistador, não havia por que continuar.

5) Outra pergunta não realizada: “Cinema ou teatro?” Arrabal escreveu peças como O triciclo, O arquiteto e o imperador da Assíria e Cemitério de Automóveis, esta última encenada no Brasil, em 1968, pelo diretor Victor Garcia a pedido de Ruth Escobar: a montagem ocorreu numa oficina mecânica transformada em sala de espetáculos, com cadeiras giratórias e palco invadindo a área da plateia. Essa é a faceta teatral de Arrabal. Porém, o diretor gaúcho Diego Machado conta que descobriu Fando e Lis através do filme homônimo de Alejandro Jodorowsky, amigo de Arrabal. Do filme, Machado foi parar na peça e depois na decisão de montar o próprio espetáculo. “Fando e Lis foi uma vivência, muito mais que uma encenação”, conta ele. Mas mais do que pensar na adaptação das peças em filmes, há também o fato de o próprio Arrabal ter trabalhado com cinema. Seu trabalho mais conhecido é Viva la muerte (1971), considerado por muitos uma das películas mais violentas da história do cinema.

6) Uma pergunta teórica – “Na história do teatro, a importância passou do escritor para a encenação, a atuação e a montagem. Depois, para o diretor. Hoje, seria o público? Ou não há mais hierarquia?” – exige uma contextualização. No início da década de 1960, o crítico austro-húngaro Martin Esslin publicou um livro no qual tentava encontrar elementos em comum numa diversidade grande de autores contemporâneos. Estava criado assim o termo Teatro do Absurdo, que Esslin associava às obras de Samuel Beckett, Eugène Ionesco, Jean Genet e o próprio Arrabal. Um bom exemplo do que seria o Teatro do Absurdo está na montagem brasileira de Cemitério de Automóveis. Já aí havia uma quebra de paradigmas: o público deixa de ter um papel de espectador, passando a participar ativamente do espetáculo. Isso vai ser ampliado com propostas teatrais posteriores, como o Teatro do Oprimido do brasileiro Augusto Boal, onde praticamente já não há separação física nem hierarquia entre ator, diretor e público. Mas nem sempre foi assim. No início da história do teatro, o texto tinha uma importância muito maior que a encenação, como se o modo de representar pouco interferisse no conteúdo da obra. É só na segunda metade do século 18 que Diderot escreve Paradoxo sobre o ator, em que discorre sobre a importância da atuação no teatro. A partir daí, o conhecimento sobre o ato de encenar o texto vai se ampliando, e a figura do diretor vive seu período de auge como a peça central de um espetáculo de teatro. É quando chega o Teatro do Absurdo, onde tudo isso começa a cair por terra. Arrabal, porém, recusa-se a falar na existência de um antes e um depois na arte, recusa-se a diferenciar vanguarda de retaguarda. Em vez disso, cita o conceito matemático dos fractais para refutar qualquer ideia de evolução linear tanto na ciência quanto na literatura. “É surpreendente que se considere minha obra de vanguarda, e outros autores mais jovens que eu se considere que já não significam nada”, diz ele, para depois sublinhar: “Não se sabe. Não sabemos.”

7) No domingo, Arrabal começou a palestra dizendo: “o teatro está em crise, sempre esteve”. A crise, portanto, seria condição para o teatro existir. Depois, falou que “tem que sofrer para fazer teatro.” Arrabal muito sofreu na sua infância, por causa da ausência do pai e também por ter em casa uma mãe que se envergonhava da situação política do marido: quando este desapareceu, ela disse aos filhos que o pai já estava morto, embora não o soubesse de fato. A obra dramática de Arrabal traz a marca dessa experiência de vida, principalmente no que diz respeito às relações familiares. O que levanta a questão: “Arte é sofrimento? Arte pode ser felicidade?” Arrabal ou não entendeu, ou fugiu da resposta, pois iniciou uma digressão de dez minutos, que culminou na seguinte afirmação: “gostaria de dizer que há muitos paralelos entre o Montanha de Açúcar, o jovem que criou o Facebook, e minha própria vida”. Montanha de Açúcar é a tradução do sobrenome alemão de Mark Zuckerberg. O ponto de ligação seria o fato de ambos terem vencido concursos para superdotados, algo que Arrabal faz sempre questão de lembrar. “Me interessou muito o Facebook”, diz ele, contando que inclusive chegou a ter um perfil nessa e em outras redes sociais. Ao cabo de alguns meses, porém, descobriu, por intermédio de amigos, que existem vários outros usuários no Facebook usando seu nome. Páginas falsas, porém com fotos e informações verdadeiras sobre sua vida. “Não fazem isso por nenhuma ambição de dinheiro, nem para molestar”, diz Arrabal. Mesmo assim, decidiu sair.

8) No início da década de 1960, Arrabal criou com os amigos Roland Topor, Alejandro Jodorowski e Jackques Sternberg, entre outros intelectuais, o conceito de Teatro Pânico. Nele, a peça teatral passa a ser um ritual do qual o público não escapava impune: é bastante conhecido o episódio em que Arrabal e companhia levaram 500 quilos de carne para o palco. O Teatro Pânico foi inclusive teorizado em livro escrito por Jodorowski. Muito já se falou sobre isso, mas talvez haja outros pontos de abordagem, como por exemplo: “Qual é o Pânico do século 21? Que movimento – que pânico – precisaria o teatro hoje?”Arrabal replicou esta pergunta com outra pergunta – “você foi na minha palestra ontem?” – e depois respondeu curtamente que o teatro e a humanidade estão em crise.

9) Eis esta que talvez seja a única pergunta claramente respondida: “O senhor não gosta de ser visto como um provocador. Por quê? O que tem o senhor contra a provocação?” Segundo Arrabal, “o provocador é um cretino que imagina que há pessoas mais cretinas que ele que vão ficar deslumbradas ou surpreendidas por algo que ele possa fazer.”

Antes de encerrar: um perfil de Fernando Arrabal não pode se considerar completo, se mostrar apenas a relação dele com a imprensa. Quando se trata de autorizar a encenação de peças suas, Arrabal tem outro comportamento: ele não concede exclusividade a nenhuma companhia e também não cobra nada. Quer apenas que suas peças virem espetáculo, nada mais.

Em 2007, o ator e diretor gaúcho Alexander Kleine escreveu para Arrabal pedindo autorização para encenar O arquiteto e o imperador da Assíria. Segundo ele, Arrabal foi muito gentil. Respondeu ao email dizendo: “Que alegria, querido desconhecido. Conte com minha autorização. Amplexo arrabal de Paris.” Kleine, no entanto, explicou-lhe que seria necessário um documento assinado, devido a questões legais. A nova resposta de Arrabal: “Tem minha autorização firmada com sangue e esperma. Beijos.”

Kleine conta que se assustou com a resposta, mas depois a encarou positivamente: “Ele é um indignado com a mesquinhez do ser humano, as convenções podres, com o capitalismo, as guerras.” E faz questão de frisar: “Ele não tem papas na língua, fala o que pensa e sempre tem resposta pra tudo.”

Ou quase tudo.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O árbitro

Eis um belíssimo fragmento do livro O Senhor Juarroz, de Gonçalo M. Tavares.

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"O árbitro

Como o senhor Juarroz não era muito adepto do desporto, optava por competir consigo próprio, através daquilo que ele designava como 'os seus dois jogadores': o pensamento e a escrita.

Fazia, assim, jogos para verificar quem era mais criativo: se o seu pensamento, se a sua escrita.

Para o senhor Juarroz - que se considerava árbitro nessa disputa, portanto: exterior e neutro em relação ao seu pensamento e à sua escrita - a vitória final era sempre da mesma parte: do pensamento. A sua escrita nunca conseguia ser tão original como os seus raciocínios.

Porém, a decisão do senhor Juarroz levantava sempre grande polêmica interna, pois a escrita argumentava que possuia provas físicas e concretas da sua criatividade, ao contrário do pensamento que nunca apresentava qualquer tipo de prova. A escrita do senhor Juarroz acabava sempre por o acusar de ser um árbitro parcial. Um batoteiro, portanto."

domingo, 24 de abril de 2011

Cinco dias em Assunção: dia 5

Publico agora a última parte da reportagem Cinco dias em Assunção, sobre a cultura paraguaia. Quem não leu desde o início, pode começar a leitura por aqui.

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Jueves, 24 de Febrero de 2011


9h30 da manhã. Chove no último dia em Assunção. O octagenário senhor Ciriaco Lambaré Blanco, mais conhecido como Chiquitín,está sentado sob a soleira sua casa, que fica dentro do Teatro Municipal. Ele olha a água caindo lá fora. Há 54 anos Chiquitín vive ali, atrás do palco, no lugar onde antigamente ficavam os camarins. O espaço onde mora parece não ter sido beneficiado com a recente reforma do prédio.

A construção é de 1844, mas só em 4 de novembro de 1855 foi inaugurado o teatro. Quase um século depois, em 1941, o jovem Chiquitín começou a trabalhar na prefeitura. Passaram-se alguns anos, até ele ser deslocado para o Teatro Municipal. “Vim cuidar da segurança, porque se roubava muito”, diz. Desde então, Chiquitín é o funcionário da prefeitura responsável pelo prédio. Ele também controlou a bilheteria durante muito tempo, e isso fez dele uma figura muito conhecida da cena teatral paraguaia. Ele está sempre lá, todas as noites, recebendo o público, quando o teatro abre as portas.

Chiquitin levanta-se da sua cadeira e vai trancar a porta da rua, alertando sobre a possibilidade de furtos. Pega um molho de chaves e sobe, vagarosamente, em meio às sombras, dois lances de escadas sem iluminação. Logo está de frente para as cadeiras da plateia. Parado, ele observa uma nova goteira cair bem no meio do palco. Ele lamenta, o teatro fora reformado há pouco: em 15 de agosto de 2006, o prédio foi reentregue aos moradores de Assunção, depois de 13 anos fechado. Diferentemente de outros edifícios históricos da cidade, o Teatro Municipal está muito bem conservado, e essa restauração preservou elementos da arquitetura antiga, sem deixar de fazer as devidas modernizações. Aquela gota realmente não deveria estar ali.

Há cenas em que a mera soma de informações não é suficiente. O fotógrafo Caio Kauffmann, que a tudo acompanha, descreve assim essa subida até o palco: “Chiquitin, de 80 anos, 54 destes vividos sob o teto do Teatro Municipal de Assunção, caminha em passos curtos assoviando uma marchinha pelas entranhas da casa de espetáculos; vencendo degraus órfãos de corrimãos, portas sem maçanetas, de arruinadas dobradiças, cambaleante.” A descrição é literal. E simbólica.

No meio da tarde, as ruas estão agitadas. O táxi deixa o hotel em direção ao aeroporto. No centro, o rio Paraguay é uma imagem sempre presente quando se olha à esquerda. Como não há aterro, parece que cidade e rio se fundem. Essa cena faz lembrar o comentário feito no início da semana pelo assessor de imprensa Luis Vera: “Assunção é uma grande aldeia. Há muitos costumes rurais na cidade. A fronteira entre urbano e rural não é tão clara.” As palavras do maestro Santos também ressoam: “ainda se está construindo a identidade cultural paraguaia.” Será essa futura identidade baseada na mistura entre urbano e rural? Na lembrança das guerras e ditaduras? Na cultura guarani?

Há muitas barreiras a serem transpostas nessa construção, antes de se alcançar novos territórios. Mas o viajante já tem algo precioso para levar de volta para o seu país.

A viagem aproxima-se do final. A cultura paraguaia não cabe numa mala. Talvez não caiba sequer numa reportagem.

Amanhã, no Brasil, será sexta-feira.

FIM

sábado, 23 de abril de 2011

Cinco dias em Assunção: dia 4

Depois do primeiro e segundo dias, e depois do terceiro, vem aí o quarto dia da reportagem Cinco dias em Assunção, sobre a cultura e a arte do Paraguai.

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Miércoles, 23 de Febrero de 2011

8h da manhã. O Mercado Público Nº 4 é o recomendado pela população local para quem quer fazer o desjejum. A forte chuva que cai em Assunção cai também dentro do mercado. Do lado de fora, os buracos das calçadas alagam, a rua vira uma corredeira. Para circular pela cidade, tem-se fatalmente que molhar os pés

São 16h. A chuva diminuiu, mas até mesmo no bairro San Jorge, de ricas casas e vizinhança tranquila, há poças a serem transpostas. É aí que está localizado o Centro de Artes Visuais Museo Del Barro. Criado em 1979, o centro é dividido em três espaços: o Museu de Arte Indígena, que expõe peças das diferentes linhagens de índios integrantes da população do país; o Museu do Barro, voltado para arte popular e arte sacra; e o Museu Paraguaio de Arte Contemporânea, que destaca nomes como Osvaldo Salerno, Carlos Colombino e Olga Blinder. Colombino, aliás, além de ser um dos fundadores do museu, tornou-se internacionalmente reconhecido por ter criado uma técnica chamada “Xilopintura” – em vez de a madeira talhada servir como molde, a pintura é feita na própria madeira. Já Osvaldo Salerno é hoje diretor do centro, cujo prédio também é dividido com a Fundação Migliorisi, reponsável por expor a obra de Ricardo Migliorisi, outro artista paraguaio contemporâneo de renome internacional.

18h30, entardecer. No Teatro Municipal, Angel Franco fala um pouco sobre os principais nomes do teatro paraguaio. Duas escolas são as responsáveis por formar diferentes gerações de atores e dramaturgos ao longo dos anos: El Ateneo Paraguayo e a Escola Municipal de Artes Cênicas. Uma das atrizes mais importantes do país é María Elena Sachero, oriunda do Ateneu. Já na Escola Municipal, destacam-se os diretores Roque Centurión Miranda e Manoela Argüello. Outro diretor bastante venerado no Paraguai é Julio Correa, criador do teatro em língua guarani.

Franco tem 55 anos de idade e passou os últimos 14 deles trabalhando no Teatro Municipal. Até hoje, a peça que mais lhe emocionou foi uma adaptação, feita pelo diretor Agustín Núñez nos anos 1990 (logo após o fim da ditadura), da obra “Yo El Supremo”, de Augusto Roa Bastos. “Foi um aposta espetacular, tirou-se as cortinas, tirou-se o cenário”, conta Franco. Toda as cenas ocorreram na biblioteca do ditador José Gaspar Rodríguez de Francia, o “Supremo” do livro de Bastos.

São 21h. No palco do Teatro Municipal, a carismática cantora Lizza Bogado faz o público vibrar. Interage com a plateia, põe-na para cantar polcas tradicionais do país, desce do palco e caminha entre as cadeiras. Ela é um ícone. Na apresentação de hoje, participa também um grupo de dançarinas. Elas dançam equilibrando garrafas e, depois, segurando um vaso. Jessica Fernandes, a coreógrafa, explica que essas são danças folclóricas do Paraguai. “Normalmente a dança é feita com uma só garrafa e o objetivo é mostrar equilibro e destreza”, conta ela. Em apresentações de gala, no entanto, pode-se usar mais garrafas.

Perto da meia noite. Em frente ao Panteón de los Héroes, o Lido Bar serve uma deliciosa empanada de jamón y queso, dentre outros recheios. Longe dali, a vida noturna de Assunção concentra-se na região conhecida como Carmelitas. São diversos bares, muitos deles franquias de redes internacionais, onde se pode escutar música em inglês e beber cerveja importada. Lá, nada é original. Nada é paraguaio.


[continua]

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Cinco dias em Assunção: dia 3

Ontem publiquei aqui o primeiro e o segundo dias da reportagem Cinco dias em Assunção, sobre a cultura e a arte paraguaia. Segue abaixo o terceiro dia.

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Martes, 22 de Febrero de 201

Passam das 13h. Embora curta, a caminhada até o prédio no fim da rua Chile, somada ao calor, já é suficiente para criar uma camada de suor sobre a pele. Onde antigamente funcionava o Congresso Nacional, agora está o Centro Cultural de la República El Cabildo. Logo na entrada, pode-se pegar um exemplar da revista 1811, uma história em quadrinhos feita pelos paraguaios Robin Wood e Roberto Goiriz. A publicação da HQ é uma das formas de comemorar o Bicentenário da Independência Paraguaia.

Assim como muitas instituições culturais do país, o Centro Cultural de la República foi criado apenas recentemente: em 14 de maio de 2004. A atenção dada à arte nacional ainda é um fato novo e tem ligação com as comemorações do Bicentenário. “Há um esforço comum, neste momento sobretudo, de buscar uma identidade e assumi-la”, diz Luis Vera, chefe de imprensa do centro cultural. Ainda assim, há uma carência de recursos para as áreas de museologia e restauração arquitetônica: no centro da cidade, muitos prédios históricos estão em situação de abandono, e algumas exposições, mesmo feitas em espaços bancados pelo governo federal, ainda são precárias na sua forma de exibição e conservação. Nesse cenário, a arte sobrevive como pode.

No segundo andar do Centro Cultural, há um espaço para homenagear Agustín Pío Barrios, paraguaio que ficou famoso tocando violão clássico. Barrios, também conhecido como Mangoré, construiu sua carreira até metade do século 19, indo na contramão da música europeia clássica da época, ao compor inspirado na música latinoamericana. Em meados dos anos 1990, o músico australiano John Williams gravou o discoThe Great Paraguayan - From The Jungles of Paraguay, no qual tocava músicas de Barrios, tornando-o reconhecido internacionalmente.

Uma pequena sala do Centro Cultural tem a missão de reunir toda a história do cinema paraguaio, desde as produções audiovisuais mais recentes – como o premiado Hamaca Paraguaya – até filmes antigos. O cinema nacional não tem ainda uma tradição, mas é a área que mais tem destaque atualmente nas artes paraguaias. “O nosso cinema é pequeno e incipiente, mas tem muita gente fazendo”, diz Vera.

Na sala ao lado, aparecem em destaque diversos nomes da música popular, como: Félix Pérez Cardozo, “el Padre del Arpa Paraguaya”; Luis Alberto Del Parana Y Los Paraguayos, que fizeram carreira internacional e inclusive aparecem em uma foto com os Beatles, em 1963; e José Asunción Flores, criador da guarânia, considerada “o” ritmo do Paraguai, ao lado da polca.

Meio da tarde. Após uma pausa para o almoço, a visita ao Centro Cultural reserva agora uma surpresa. Um corredor, entre o segundo andar e o térreo, homenageia artistas que tiveram destaque em áreas como dança, literatura, teatro, música e poesia. No fim desse corredor, um espaço celebra a vida e a obra do músico Juan Carlos Moreno Gonzáles. Algumas mulheres estão sentadas nessa sala, conversando – fica-se sabendo em seguida que são mães. De uma porta ao lado delas, vem o som de um coral infantil. Ao entrar, descobre-se dezenas de crianças em círculo, cantando afinadas, em coro, Recuerdos de Ypacarai, a guarânia mais conhecida do Paraguai. Elas estão ensaiando para uma apresentação em maio, nas comemorações do Bicentenário. O coral foi ideia de Margarita Morselli, diretora geral do Centro Cultural. Participam 80 crianças, oriundas de Assunção e também do interior do país.

Anoitece. Agora são 21h. No Teatro Municipal Ignacio A. Pane, cinco músicos, com trabalhos em vertentes diferentes da música paraguaia, reúnem-se para fazer o espetáculo “Cantautores”. Como são todos amigos, a apresentação é leve, simples e carregada de cultura. Cada músico senta-se em uma banqueta. Eles anunciam uns aos outros e, entre uma música e outra, conversam, discutem questões da identidade paraguaia, apresentam ritmos e histórias. Destaca-se Hugo Ferreira, com suas canções de protesto político, e Victor Riveros, que canta em guarani, língua indígena falada no interior do país. Riveros, aliás, comenta que gostaria que houvesse um resgate do guarani também em meio urbano, o que faz lembrar uma fala de Veras de poucas horas antes: “não se vê diretamente a influência guarani na arte paraguaia, mas ela está sempre ali, por trás de toda criação.”

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