quarta-feira, 10 de setembro de 2008

As problemáticas idiomáticas

Faz um mês que estou na Alemanha. Nesse meio tempo, fiz uma série de reflexões sobre o aprendizado de uma segunda ou terceira lingua, algumas dessas reflexões sem importância alguma no contexto da história geral da humanidade. Notei, por exemplo, que aqui se geme de dor diferentemente de como se geme em português. Diz-se “aua”, em vez de simplesmente “ai”. De início achei que fosse só na casa em que estou, mas não, todo mundo fala assim aqui. Já ouvi “aua” em programas de tevê.

Também são interessantes as fases pelas quais a gente passa na busca de aprender um idioma. Cheguei aqui me virando bem na comunicação básica. Estava satisfeito. Notei que já falava alemão no Brasil, só não tivera oportunidade de usar o idioma até então. As necessidades cotidianas, porém, fazem com que a gente aprenda mais. No início eu praticamente contava quantas palavras novas eu aprendia por dia, apesar de a Christine, minha anfitriã, já ter me dito: “aprende-se alemão com a barriga, não com a cabeça”. Enfim, chega um momento em que dá uma angústia. Todo mundo falando à sua volta e você não entendendo nada. E você sabe que eles estão trocando informações simples.

A minha situação foi piorada pelo fato de eu ter ido em duas peças de teatro em que praticamente nada entendi. A primeira era infantil, ou seja, uma linguagem simples. Eu entendia o que acontecia pelo movimento das personagens em cena, mas não pela fala. Aprendi só duas ou três palavras com essa peça, apesar de ter gostado bastante. A segunda era de humor. O público ria às turras e chegou a pedir bis duas vezes. Fiquei sério quase o tempo inteiro. Eu só ria das expressões dos músicos-atores, que faziam umas imitações em capela muito engraçadas.

Depois chega uma fase que você aprende palavras em campos diferentes da vida cotidiana. Por exemplo: “alemão para cortar grama”. No meu caso, tem também o “alemão para jogar futebol”, “alemão no trânsito”, “alemão de lições de matemática” e o “alemão para fazer judô”. Isso me agrada, ter uma noção mais ampla, em vários aspectos da lingua. Por outro lado, estava sendo difícil para mim guardar todas as palavras novas que aprendia. Tem umas que se pensa que nunca mais vai ouvir, como por exemplo a que aprendi durante o teste de auto-escola: “Vorfahrt”. Esse exemplo é bom, porque ouvi a palavra, mas não sabia como escrever. Pois bem, outro dia li essa palavra num jornal e não esqueci mais. Está aprendida. Ah, sim, “Vorfahrt” quer dizer “preferência, prioridade”.

Enfim, há certa altura eu estava conseguindo me virar muito bem para falar, quer dizer, conseguindo expressar tudo que eu queria (claro que eu não estava querendo expressar muito, não sou exibido), mas não entendendo nada do que falavam, tampouco do que eu via na tevê ou escutava no rádio. Absolutamente nada. Eu inclusive gostaria de ter um gravador para registrar todas essas primeiras conversas e, daqui um ano, descobrir surpreso (ou entediado) sobre o que se tratavam.

Há duas semanas, num sábado, passei a tarde com o jornalista Manfred Fickers, que trabalha no jornal Meppener Tagespost. O Manfred é amigo da Christine e me levou para conhecer alguns lugares bacanas nos arredores, como um museu de barcos antigos e centros de reciclagem na Alemanha. Ele também estava escrevendo uma matéria sobre mim, sou um animal exótico aqui. Quando for publicada, linco neste blog. Por ora, olhe as fotos que tirei.



Pois nessa tarde eu não entendi absolutamente nada do que o Manfred dizia. Foi terrível, eu tentava achar uma palavra conhecida no meio da frase dele pra voltar ao assunto, mas não dava tempo, logo me perdia de novo. Ruim pra mim e ruim pra ele. Cheguei em casa morrendo de dor de cabeça e desiludido com a possibilidade de aprender alemão de fato um dia. Acho que isso aconteceu porque foi uma conversa entre dois jornalistas, ou seja, ele falava coisas ligadas à profissão, um vocabulário que ainda não tenho muito contato.

Curiosamente, na última sexta-feira, percebi que começo a entender muito mais a comunicação das ruas, o que as pessoas falam entre si na cidade. E dentro de casa, então, noto que já falo sem pensar, converso como um alemão conversa. Bem diferente dos primeiros dias, em que eu acordava e pensava: “bah, agora tenho que falar em outra língua”. Hoje já termino o sonho sonhando em alemão.

O primeiro dia que usei internet aqui quase pifou de vez meu cérebro. Ele estava acostumado a quase pensar em alemão, daí eu comecei a falar em português com meus amigos na internet e, duas horas depois, eu simplesmente tinha esquecido como dizer coisas simples em alemão. Deu tiuti. Hoje a mudança de idioma é fácil e rápida. Essa é outra habilidade que se adquire quando se avança no aprendizado de outro idioma.

Resumindo, me parece que agora consigo entender mais, compreender mais palavras (e cada nova palavra ajuda a entender muitas outras ligadas a ela) quando falam comigo ou quando assisto à uma conversa, principalmente quando sei o assunto. Na última sexta-feira, por exemplo, fomos no hospital conversar com o médico do Saboor. Eu entendi todas as instruções que ele deu, pois sei bem agora o tratamento que Saboor faz. Também tenho conseguido ler melhor alguns textos, seja jornal, seja livro de quadrinhos. As imagens ajudam muito nessa fase.

E esses dias aconteceu algo estranho. Aluguei o filme “Before the sunrise”, no Brasil chamado de “Antes do Amanhecer”. É um filme belíssimo, recomendo a todos assistirem, inclusive a sequência, chamada “Antes do Pôr-do-sol”. Pois bem, eu queria treinar meu inglês , então pus o idioma e a legenda em inglês. Começou o filme, e um casal estava discutindo em alemão num trem. Dei pause, procurei arrumar as configurações, mas estava tudo certo. “Scheisse”, disse pra mim mesmo (um palavrão), “este dvd não funciona direito, não vou entender nada.” Eu estava compreendendo boa parte do conteúdo da discussão do casal, mas sabia que não agüentaria o filme inteiro. Dois minutos depois, os verdadeiros protagonistas entraram em cena, falando em inglês. Quando percebi o que aconteceu, ri. Quer dizer, a fala em alemão era para não ser entendida (e me parece bem lógica a escolha do roteirista: alemão é uma lingua pra não ser entendida mesmo). E eu compreendi quase tudo!

Em todo caso, quando algo me dói ainda não digo “aua”.

5 comentários:

Gustavo Hennemann disse...

Legal, Augusto.
Quanto mais tu sabe, mais rápido vai aprendendo. Tomara que logo tu já saiba trovar em alemão, hehehe. Aí levamos o Betinho pra fazer show nas ruas de Berlim e tu traduz as trovas. Beleza?! Ficamos ricos em um mês!
Abração.

marcelo engster disse...

sehr gut, hehe.
baita iniciativa,
parabéns pelo blog
abraço

Fabiano disse...

Não te mixa augustinho, no começo é assim mesmo.
No início, o cara não passando fome por não conseguir dizer o que quer comer, tá bom... Logo melhora! (o problema que o cara perde a desculpa de não conseguir trovar as alemãs... rsrsrsrs).

PS.: se converter as fotos do Manfred pra desenho, com aquela torre nuclear atrás, ele vira um personagem dOs Simpsons!!! rsrss

Abração!

Paulo Roberto disse...

Augusto!
Apesar dessas idas e vindas em alemão, continuas escrevendo bem em português. Diria que até melhor.
Uma boníssima semana próxima.
Abraço.

Lenara disse...

que ótima a idéia do gravador! ;)

a mesma coisa aconteceu comigo quando recém cheguei, mas depois de uns meses, quase como um "milagre", o cérebro começa a entender as conversas que antes eram pra nós ininteligíveis.