quarta-feira, 8 de outubro de 2008

Pegando carona com o Augusto

Dirigindo ou pedalando na Alemanha, cheguei à seguinte conclusão: não só o tempo, mas também a distância é relativa. O que é perto é longe, e o que é longe é ao lado do lugar em que você estava a uma hora atrás.

Não entendeu? Pois é bem assim que me sinto em relação ao trânsito aqui. Não entendo nada, absolutamente nada. Talvez porque seja mais organizado que no Brasil.

Outro dia, peguei minha bicicleta e sai a passear, sem destino, mas com direção. No campo, ao longe, vi um monte de ventiladores para captação de energia eólica, que têm aos montes aqui. Pois decidi, curioso que sou, vê-los de perto. Pedalei, pedalei, e uma hora os ventiladores tinham de finalmente aparecer. Então, eis que eles surgem:



Depois desse passeio natureba e zen, pedalei mais um pouco de volta para casa. Decidi fazer um outro caminho, mas imaginando que daria no destino que eu queria. Fiz meia dúzia de voltas para passear mais um pouco, mas meu sistema de orientação (que, admito, não é dos melhores ou, dizendo em outras palavras, é dos piores) me dizia que eu estava bem longe do ponto de partida. De repente, vi um caminho no meio dumas árvores muito parecido com o caminho que costuma levar de volta para casa. Peguei essa rota apenas de curiosidade, porque seria impossível ser aquele o caminho certo. 200 metros depois, eu estava em casa.

Não entendi bulhufas. Também não daria muita bola para isso, se não tivesse acontecido muitas e muitas outras vezes depois. Enfim, ainda não encontrei explicação, a não ser a de que as ruas aqui são circulares, embora não pareçam. Ou seja, você está sempre andando em círculos, sempre voltando para o mesmo lugar. Pegando certas ruas, você anda em círculos e sai em outro lugar. Faz sentido para os alemães, para mim ainda não.

***

No último final de semana, a Sílvia, amiga austríaca da Christine, esteve nos visitando. Segunda-feira, ao meio-dia, ela precisava pegar o vôo de volta para Viena. O aeroporto mais próximo fica em Münster, a 90 km de Haselünne. A Christine tinha que trabalhar e pediu para eu levar a amiga. Como se já não fosse desafio grande voltar sozinho de carro, me ofereci para, às 13h, pegar os meninos no colégio, em Meppen, a 20km de Haselünne.

Saímos às 10h, eu e a Sílvia. A ida foi tranqüila, quase nem precisamos usar o aparelho de navegação por GPS (que praticamente todo mundo tem aqui). Às 11h30, chegamos no aeroporto. Eu tinha mais uma hora e meia para voltar.

Esse aparelho de GPS não é 100% confiável, mas quase. Em alguns momentos, me parecia que o caminho de volta era outro, mas pensei: "na dúvida, vou pelo GPS. Pelo menos a culpa não é minha." O computador foi me levando por estradas novas, que eu não tinha usado na ida. Peguei duas Auto-Bahn, as famosas auto-estradas alemãs. Eu dirigia à 120 ou 130km/h, a direção chegava a tremer, e ainda assim passavam carros ao meu lado muito mais rápidos. Uma curiosa sensação essa, ultrapassar um carro numa Auto-Bahn, voltar para o lado direito da pista e seguir viagem tranqüilo. Em alta velocidade, mas tranqüilo. Parece incoerente, mas aqui é possível.

Eu me sentia como no início do filme "O Céu de Lisboa", do diretor alemão Wim Wenders. Quem ainda não viu, recomendo. É uma obra-prima. No início do filme, o protagonista dirige da Alemanha até Portugal, e a câmera fixa vai mostrando diferentes estradas, momentos do dia, condições climáticas e paisagens que o motorista encontra. Sem falar nas músicas que mudam, ou no som da estrada, quando o rádio está desligado, que também muda. Essa seqüência de imagens me parece registrar muito bem certa sensação que temos quando viajamos, embora eu não saiba explicar que sensação é. Bem, o filme do Wim Wenders já explica.


Voltando à minha viagem. Eu estava tal qual um personagem de cinema, e o diretor do filme era o GPS. Saí da Auto-Bahn e fui parar numa estrada mais ou menos conhecida. Estava agora em Meppen, 10 min atrasado, mas em tempo.

Meppen eu visito freqüentemente, embora ainda não tenha decorado bem as ruas. Daí que eu não sabia ao certo como chegar até a escola. Depois de algumas manobras um pouco diferentes do convencional e algumas apagadas na primeira marcha em função do nervosismo, confessei a mim mesmo de que eu estava perdido. Aliás, não só perdido, perdidaço. E o relógio continuava a andar...

Liguei para a Christine, mas ela fala alemão, e eu, português. Ela arranha um português, eu arranho um alemão. De modo que não adiantou muito. Apenas ficou claro que eu precisava pedir ajuda na rua. Andei mais um pouco, na esperança de o destino me colocar na rua certa. Parei o carro para fuçar no GPS. No espelho lateral, vi um carro da polícia se aproximando. Aí, meu amigo, não tive dúvida: fiz sinal para a viatura parar.

Traduzindo, o que falei para o Seu Guarda foi mais ou menos assim: "Olá, desculpa por incomodar. Eu sou brasileiro e estou perdido. (Pausa para o policial dizer "Brasil!", uma palavra mágica que sempre abre portas, talvez porque remeta a cerveja, mulher e futebol.) O senhor sabe onde fica a escola Maria Monte-Sourre? Poderia me guiar até lá?"

Cara-de-pau, eu. Mas, nessas horas, isso pouco importa. O Seu Guarda, cumprindo um dos seus deveres profissionais que é servir à população, me guiou por duas ou três ruas. Descobri que estive bem perto da escola, mas errei a saída na última rotatória. Foi por pouco.

A aventura foi só até aí. Depois bem fácil: pegar os piás e voltar para casa, aliviado, com uma bóia bem boa me esperando para recuperar o cansaço.

5 comentários:

Xico disse...

tche Augusto, onde tu escreveu "um monte de ventiladores para captação de energia solar", só prá não ficar errado aí no teu blog, os ventiladores captam a energia dos ventos ou energia eólica =)
grande abraço!

Leonardo disse...

Coincidência ou não, eu tava vendo um filme do Wim Wenders ontem de noite e me lembrei de ti. Não era o Céu de Lisboa, que eu ainda tenho de ver, mas o "Movimento em Falso", um dos 5 ou 6 da coleção dele que tem na Cesma.

Hoje, na minha passeada matinal pela rede, pensei Vou lá no Augustfest vem se tem alguma coisa nova. E aqui estou.

O Win Wenders é o cara dos road movies. Impressionante como ele gosta disso, e de como a gente acaba gostando também - pelo menos eu. Sinto uma felicidade estranha vendo esses filmes dele, algo parecido com a sensação que tive lendo o On the Road pela primeira vez.

Imagino o quanto deve ser uma experiência inesquecível dirigir por algum lugar, como se estivesse num filme dele. Mas eu só imagino, enquanto tu sente e vive.

Abraço!

Anderson Ribeiro disse...

Gustin, você não estava se sentindo o D. Quixote, né? e ventiladores???? aqui, Às vezes preciso desses gigantes por perto, pois nem mesmo o mar 'sopra' tanto pra aliviar o calor. Bem, dei muitas gargalhadas sozinho lendo sua história, claro que tenho em minha mente voc~e dirigindo até Xingó, quando esteve aqui em Sergipe e fiquei imaginando você deixando o carro morrer. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk. Queria estar aí. Juro que eu não ajudaria você de tanto rir. Um garnde abraço. e Isso aqui está ótimo. Conta mais essa saga.

Chapeuzinho disse...

"ná duvida, vou pelo GPS, pelo menos a culpa não é minha" hehhehehe Fazendo coro aos demais, é mt bom ler essas "aventuras" aí no velho continete, ainda + com uma boa dose d humor!

me senti meio ignorante, só vi 1 filme do win wender (tão loge tão perto), ker dizer 2, mas esse segundo o mundo inteiro detesta (Hotel d 1 milhão d dólares, escrito pelo Bonão do U2).

Ana Cláudia disse...

O cabeção, isto se chama eólica!rsrsrs

Tem um monte de eólica em Palmas, no Paraná. Tirei umas fotos com os tais ventiladores....nossa, é impressionante! Quando a gente chega perto, então...fiz até um vídeo, bem caseiro, perguntando para as minhas colegas o que era aquilo. Veio de tudo: ventilador gigante, coisas colocada pelos ufos para despistar e garantir no (des) atenção, etc, etc!rsrsrsrs