quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Glória e glamour, as moedas do jornalista

Certa vez ouvi num congresso a célebre expressão "síndrome da sobreloja" pra explicar algo que acontece com frequência entre jornalistas: "começou a subir, começa a dar uma vertigem..." Sim, o sucesso facilmente sobe à cabeça.

Por outro lado, eu tenho acompanhado um processo perverso alimentado pela mesma dinâmica, mas por parte das empresas. É comum (não só comigo) receber propostas de jobs num valor abaixo do previso pelo sindicato dos jornalistas profissionais do RS (vide tabela, algo que todo jornalista deveria ver, por respeito a si mesmo e à profissão). Acompanhado do valor pífio (que às vezes me dá vontade de ser marceneiro ou pintor ou montador de móveis, que dá muito mais dinheiro), vem a seguinte frase: "mas o trabalho é pra revista/editora/empresaX, o que é muito bom para o currículo..."

Se essa ideia pudesse ser usada em outros campos das nossas relações, seria muito boa. Eu adoraria chegar pra empresa de energia elétrica e dizer: "quem sabe vocês me liberam de pagar a conta, já que eu sou jornalista da revista/editora/empresaX...?"

Tanto há jornalista que vive de glamour quanto há empresas que querem pagar jornalistas apenas com glamour. Daí que jornalista que tem consciência do valor do seu trabalho e das contas a pagar, se vê em maus lençóis.

***

Uma outra questão interessante da profissão ligada ao mesmo tema: há dois anos, fui entrevistar um conhecido jogador de futebol. Conhecido mesmo. Não cito nomes para evitar constrangimentos.

Bueno, fui quatro vezes na mesma semana, quatro dias seguidos, até o estádio, pegando dois ônibus na ida e dois na volta, na tentativa de chegar até o bendito craque. No primeiro dia, depois de duas horas de pé esperando acabar o treino, consegui o contato com ele praticamente me jogando na frente do carro (não lembro a marca, mas era um carrão). O craque pediu para eu falar com o assessor dele.

No segundo dia, vacinado, combinei tudo com o assessor, antes de ir. Cheguei lá, faceiro e nervoso ao mesmpo tempo. Mas vamos que vamos. Aí, depois dos dois ônibus para a ida, chego lá e o assessor me diz: "bah, hoje não vai dar, o craque vai concentrar agora há pouco... você vem daqui dois dias!"

O assessor tinha meu número de celular e não ligou para avisar. Peguei mais dois ônibus e voltei para casa.

No terceiro dia, tentei conseguir credencial pra ir no estádio como imprensa para fazer imagens do craque jogando uma partida oficial. Peguei dois ônibus. Era noite. À tarde, os responsáveis pelo credenciamento me mandaram ir até o estádio, que lá dariam um jeito. Chegando lá, fui barrado. Nem na arquibancada eu poderia ficar. Só pagando ingresso.

No quarto dia, peguei dois ônibus pra ir, cheguei ao estádio, o assessor e o craque estavam me esperando. Fiz a entrevista com o assessor me cochichando no ouvido: "só mais duas perguntas, só mais duas!" O craque deu um depoimento de merda, que não acrescentou em nada, tão acostumado que estava a dar as mesmas entrevistas o dia inteiro.

Peguei dois ônibus para voltar para casa. A princípio, tinha um material glamouroso: uma entrevista com um craque. Mas o craque saiu com um carrão depois de duas horinhas de treino, provavelmente pararia num restaurante para jantar. Eu cheguei em casa depois de duas horas de ônibus e preparei um miojo na minha kitnet.

Algumas semanas depois, uma chuva me pegou desprevinido na rua, sem guarda-chuva. Me encharquei no caminho para uma entrevista com um ex-morador de rua, que ainda era índio caigangui e homossexual. A entrevista durou uma hora. Como acontece nas melhores entrevistas, havia uma empatia mútua no ar, e eu senti que estava fazendo algo muito importante para a vida do meu entrevistado. Não é toda hora que um veículo de imprensa chega até ele e pede para contar, sem cortes, a sua história de vida.

Lembro que nesse dia, saindo da entrevista ensopado, cheguei em casa feliz: tinha descoberto o que eu quero da minha profissão, da minha vida. Não quero viver de glamour. Quero sobreviver, recebendo o que for digno. E contribuir, do jeito que for possível, para algo maior.

O ex-morador de rua faleceu há alguns meses. O jogador que entrevistei está na seleção brasileira.

Eu... Pouca coisa mudou para mim. Apenas a consciência de que o jornalista é um humilde entre os glamourosos, e que não deve haver ilusão sobre isso. Quero sempre ser humilde.

E quero ser pago com dinheiro, não com glamour.

6 comentários:

Antonia Moura disse...

Gusto!!
Realmente esse aspecto de nossa profissão também me entristece! E sigo como você procurando ser feliz e principalmente feliz com as minhas convicções. Também troco facil o glamour por um café quente e um sorriso sincero depois de uma boa conversa!
É vida que move a vida!
bjo

gabism disse...

Augusto,
parabéns por não se acomodar e provocar todos os jornalistas que aceitam estampar o nome pelo glamour. Seu texto me lembrou também de uma experiência dos Sotaques, na qual também uma das entrevistas mais prazerosas foi com um ex-morador de rua. Enquanto a tentativa de entrevistar o dramaturgo Walcyr Carrasco foi totalmente frustrada. Para mim, o glamour do jornalismo está em nos colocar em contato com esses diferentes perfis e concluir que eles são uma mesma coisa: pessoas, parte da sociedade. Objeto de nossas matérias.

Leandro Lopes disse...

Sensacional! Tenho dito!

queerandpolitics disse...

Não conhecia seu blog, Augusto. Muito interessante seu relato. Parabéns pela lucidez. Abraços.

Leandro Malósi Dóro disse...

Síndrome de papagaio de pirata. Isso é o que define os jornalistas. Trabalho com assessoria de imprensa, na área gráfica, há anos. Isso me deixa feliz, em parte, e paga as contas. Sinto saudades dos tempos de redação, em que a cada dia chegava ao jornal sem saber onde ia ou recebia um telefonema e ia em busca de alguma pauta longínqua. Porém isso nunca pagava minhas contas e deixava pouquíssimo tempo para viver meus dias fora da redação. Prefiro o trabalho prazeroso ao glamour. Entretanto creio que o que gostamos de fazer sempre nos fará sermos dependentes de estruturas hierárquicas onde somos mediadores. É nossa escolha.

Viky disse...

Que orgulho enorme me deu ler teu texto. Já tava bem orgulhosa de ti pelo teu trabalho de tradução (Cash). Então tá aí: tô muito feliz por ti e pelo que tu é e como tu é.

Um beijão carinhoso.

Virginia