domingo, 23 de novembro de 2008

Na sexta, a primeira!

Nunca imaginei que minha primeira vez fosse acontecer logo na Alemanha. Mas primeiras vezes não têm hora nem lugar para acontecer.

Hoje acordei com ela e foi maravilhoso. Uma sensação estranha, começando com um frio aos poucos transformado em torpor. Começou na barriga e se espalhou prazerosamente pelo corpo. Sim, a primeira vez. A primeira vez com ela. Não tem como segurar a alegria. O dia fica lindo, o céu vem ao meu encontro. Sou um novo homem agora, pois eu a vi, branca em sua nudez.

Ivo viu a uva. Rubem Braga viu a viúva. Eu, parodiando Braga, vi a neve.

Comecei a ver a neve anteontem, sexta-feira, 21 de novembro de 2008, durante a correria da mudança para a nova casa. Eu esperava na oficina mecânica o conserto da caminhoneta de transporte. Enquanto bebia café, eu lia uma revista de fofocas para aprender palavras novas em alemão. Levantei a cabeça e vi os flocos de neve caindo lá fora.

- Neve! - eu disse, faceiro.

(Mentira, na verdade eu disse: "Schnee!")

Klaudia, funcionária do consultório da Christine, estava lá comigo. Perguntei-lhe se logo eu veria tudo branco, que nem nos filmes. Ela disse que não, as ruas ainda estavam quentes, a neve logo derreteria. Talvez em janeiro ou fevereiro, no auge do inverno, ela disse.

Então, eis que ontem de manhã fui acordado por três meninos gritando: "Augusto, Augusto, acorda! Supresa!" E a surpresa foi abrir a janela. Eis o que vi:




Havia nevado a noite inteira. Tudo branquinho, branquinho. Branquinho da Silva. Da Silva Hoffmeister.

Não tive muito tempo para me maravilhar, pois havia bastante trabalho pela frente. Além do mais, foi a primeira vez que eu vi a neve, a primeira vez também que a neve me viu, mas ela já tinha visto muita gente antes. Realmente, a neve não é bem-vinda, principalmente quando se está de mudança. As ruas tornam-se escorregadias, tudo fica úmido e as pessoas não gostam de levar boladas de neve na cabeça. Em todo caso, depois de descer todos os móveis do meu quarto, que fica(va) no segundo andar da casa, achei um tempo para descansar e tomar um café com Mawil, sobrinho da Christine que estava me ajudando. Pela janela, víamos o campo embranquiçado. Iládio, Benedito e Saboor construíam lá fora (por que se fosse dentro de casa haveria briga) um boneco de neve.

O dia passou, como sempre passa. A neve não parou de cair, contrariando assim as expectativas de todos. Menos a minha; nunca antes havia visto neve na minha vida, agora queria ver bastante. No intervalo entre uma tarefa e outra, eu parava no beiral da nova casa e olhava os flocos caindo. Em outros momentos, eu escrevia uma frase na neve, em alemão, ou então jogava uma bola no Mawil.

Sei que ainda verei muita neve por aqui, mas a primeira vez a gente não esquece.

Minha primeira neve, não te esquecerei jamais!

Derreta em paz.

5 comentários:

Anderson Ribeiro disse...

A neve quando cai é leve como a leveza da visão maravilhada? É encantadora como um banho de chuva em plena madrugada?

Leonardo disse...

Pô, bonito texto, cara. De verdade. Aproveita a neve, entonces.

abraço!

Gustavo Hennemann disse...

Que jóia a neve, home. Che, não entendi. Tu tá mudando de quarto?

Ana Cláudia disse...

Pra começar, pensei: meu irmão está seguindo o ramo da literatura pornográfica. Aí, repensei: termino ou não de ler este texto...vai que aparecem alguns detalhes...sei lá, vai saber! Ufa, você blefou!

Sobre a neve, nem imagino a sensação!
Faz assim, guarda num potinho, no congelador, para eu ver aqui no Brasil!rsrssrrs

Marcelo Cordeiro disse...

gosto de neve, também