quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Os colonos em Colônia

No dia 24 de outubro, sexta-feira, viajei a Köln, também conhecida como Cologna ou Colônia. Comecei a viagem já com o pé esquerdo, como todas as viagens que tenho feito aqui até agora: eu comprara a passagem algumas semanas antes com o objetivo de encontrar uma jornalista em Düsseldorf, ali pertinho. Na véspera, porém, ela me escreveu um email. O encontro estava cancelado, porque ela precisava viajar para o Brasil com o governador. Imagina se a jornalista deixaria de ir por causa de um jovem brasileiro à toa na Alemanha que queria conhecer a instituição onde ela trabalha...

Decidi viajar de qualquer jeito, até porque não tinha como trocar a passagem. Desembarquei em Köln, tremendo de medo de um fiscal me parar (eu de fato teria de descer em Düsseldorf, uma estação antes). Deu tudo certo. E, para minha surpresa, mal saí da estação central de Köln, dei de cara com esta maravilha:


Essa igreja milenar (não lembro exatamente o quão milenar ela é) chama-se Dom. É linda e enorme. Fora isso, para quem não parou para ler as placas e tem pouca formação teológica e/ou arquitetônica, Dom é igual a outras igrejas que têm por aí, com o acréscimo de ser perfeita para uma foto estilo turista brasileiro na Europa.


Caminhando ao léu, fui parar em alguns pontos turísticos da cidade. Não vou citá-los, porque é muito chato sem fotos. Só posso dizer que depois de cinco horas caminhando com uma baita mochila nas costas, sozinho, pensando em dinheiro (no pouco que tinha à disposição e nos vários gastos que estavam por vir) me deparei com um daqueles momentos tão comuns de fadiga e estresse em viagens que não aparecem nas fotos. Para compensar, decidi gastar comendo uma pizza. É assim, quando me estresso, agrado primeiro o estômago, que distribui o contentamento aos poucos pro resto do corpo.

Estava nessas, quando o João me ligou. O João estuda engenharia elétrica na UFSM. Participamos juntos do PET (Programa de Ensino Tutorial), do Mec, e com freqüência nos víamos, embora nunca tivéssemos conversado, acho. Ele está aqui na Alemanha fazendo intercâmbio profissional. Combinamos essa viagem juntos, de parceria. Eu ainda tinha dúvida se ele chegaria na sexta mesmo ou no sábado, então foi realmente uma ótima surpresa a ligação dele.

Para iniciar os trabalhos, bebemos uma cerveja. João tinha uma cachaça mineira na mochila, o plano era virar a noite dormindo na estação de trem, economizando em pouso. Ligamos para o Tim, um alemão de 18 anos que havia feito intercâmbio em Santa Maria, RS. Ele apareceu com um amigo. Ambos muito atenciosos, nos levaram para conhecer a cidade. Os dois podiam ser guias turísticos, sabem muitas coisas sobre a história de Köln.

Paramos num bar, bebemos um pouco (eu e o João, pois Tim e o amigo não bebem) e voltamos a caminhar. A dupla de brasileiros aqui sempre com a mochila nas costas. Resultado: às 2 horas da manhã, estávamos tão cansados, mas tão cansados, que não tivemos outra solução senão pernoitar num albergue. Ok, sem problemas, às vezes tem-se de gastar um pouco, dormir até meio-dia para recuperar o corpo. Que nada! Às 9h e meia todos tinham de fazer check-out, sem exceção. Ou seja, pagamos uma diária inteira para dormir cerca de seis horas, se chegou a tanto.

Até aí a viagem estava realmente uma Scheisse (melhor dizer em alemão, para não ofender)! Mas então veio o sábado e as coisas começaram a melhorar. Primeiro, o povo do albergue deixou que guardássemos nossas mochilas lá durante o dia, o que já aliviava a dor nas costas. Depois, chegando no Museu do Chocolate, aceitaram tanto a carteirinha de estudante do João quanto a minha de Aupair, então tivemos desconto.

No Schokolademuseum, fiz alguns vídeos:










Seguimos caminhando. Ensinei ao João que quando se vê uma bifurcação na Alemanha, tem-se de pegar o caminho menos provável de levar a um lugar legal. Logo provamos minha teoria. Fomos parar no centro velho da cidade, talvez o único ponto turístico que não tínhamos passado ainda.


Na rua, reencontramos a Kelly, brasileira que agora mora na Suíça. Digo reencontramos porque ela nos parou na rua no dia anterior, ao escutar o familiar idioma natal, somado a uns "tchês" e "bahs" aqui e acolá.


"O tempo passa. E onde o tempo tem passado, intala-se o passado." Pois o tempo foi passando, que nem no texto da HQ "Transmutações Políticas". No fim do dia, já cansados, decidimos visitar a universidade. Nova maré de azar. Era noite, estava tudo fechado. Dessa vez, porém, era tudo ou nada em questão de grana. Havíamos decidido passar a noite na estação de trem, não pagaríamos de jeito nenhum para dormir num albergue. Nesse dia tomaríamos o primeiro de muitos goles da cachaça, para agüentar o tirão. Era cedo, porém, e estávamos cansados, sem destino e sem motivação.

Foi então que fez-se luz.

Passando numa rua deserta qualquer em direção aonde ouvesse pessoas e festas, cruzamos na frente dum quiosquezinho. Eu pensei: por que não entrar e ver quanto custa a cerveja? Estávamos perto da universidade e, por mais que os estudantes na Alemanha não devam (suposição minha) ser tão miseráveis quanto os estudantes brasileiros somos, botecos universitários são universalmente mais baratos. Eu estava com razão. Um euro por uma cerveja de 600ml! Um euro! Não tenho como explicar o que representou o achado na nossa motivação. Até então, era 1,40 por uma cervejinha pequena, mixuruca. Agora um mundo de possibilidades se abria à nossa frente. Começou nossa maré de sorte.

Sentamos numa mureta, bebendo e conversando, recuperando as energias e se animando pra noite. A dona do quiosque se solidarizou conosco e veio nos trazer sanduíches. Seguimos adiante rumo às luzes boêmias. Conversávamos com as pessoas nas ruas, contentes por poder (tentar) fazer isso em alemão. Enfim, tínhamos o mundo aos nossos pés!

Ao fim de uma série de andanças, fomos parar neste lugar:



Depois de um certo tempo lá, bateu novamente o cansaço. A noite anterior mal(e pouco)-dormida, o dia inteiro de caminhada e o desânimo prévio bateram pesado. Antes de ir para a estação tentar a sorte com a cachaça, decidimos parar para comer um Döner, uma comida turca bem conhecida, que cumpre por aqui a função do xis e do cachorro quente na saída das festas. Achamos um lugar que vendia por dois euros, metade do preço que estávamos pagando até então. Desconfiados, perguntamos o preço de novo. Era verdade. Desconfiamos da qualidade, mas depois vimos que era bem bom. Realmente, estávamos agora com sorte.

Enquanto comíamos Döner, puxamos assunto com duas alemoas: Tina (que fala um pouco de espanhol, pois estivera na Bolívia) e Janette. Seguimos juntos, o quarteto idiomático. Logo encontramos uma porção de amigos delas, ao ponto de, em certa esquina, estarmos todos numa verdadeira torre de Babel: espanhol, português, inglês, alemão. Quando o pessoal quer se entender, dá-se um jeito!

Depois disso, fomos parar numa série de bares verdadeiramente nativos (com isso quero dizer: "sem glamour, mas autênticos, legítimos DCEs e Macondos de Colônia"), dos quais não me lembro muito bem. Ganhamos uma hora a mais porque começava o horário de inverno naquela noite. No fim, por sorte (estávamos merecendo), paramos num bar com um belo sofá, excelente para dormir. Como a festa durava até oito horas da manhã, tivemos um tempo para recuperar um pouco as energias, apesar de um bêbado que outro bem malas que vinham nos acordar para puxar papo.

Ao fim da maratona, estávamos com esta cara:


Ainda encontramos, perto das oito horas da manhã, um homem na rua muito estranho. Paramos para pedir-lhe informação, ele veio com uns papos muito loucos, que nem vale a pena tentar traduzir. Apenas eu e o João nos olhamos, como quem diz: "cada tipo que aparece!" São dessas coisas que acontecem e não têm explicação.

Depois nos despedimos, eu e o João, e fomos, mortos de cansados, de volta aos respectivos lares. Eu voltei para Haselünne, onde encontrei minha família anfitriã de volta de Paris, onde passaram um dia em função dum trabalho de escola do Iládio sobre a França. Dormi doze horas ininterruptas. O João voltou para Bocholt, onde faz estágio numa Fachschule. Dormiu quinze horas.

A vida, por si, voltou à rotina com o chegar da segunda-feira. Da viagem à Köln, ficaram agora apenas estas fotos e as lembranças esparsas.


É isso.

2 comentários:

Anderson Ribeiro disse...

Sempre tive um lema: tudo no fim da certo. E comigo sempre deu (ainda bem!). Viajei várias vezes sem muita grana e sem planejamento algum. Tipo: Vamos ver no que dá isso aqui. E foram as melhores da minha vida. 'Jogue-se e você verá que pode ser o que jamais pensou ser". É isso aí. Um abraço, loiro. Saudades. E o niver dos blogs?

Ana Cláudia disse...

Noooooooooooossa, que igreja m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-a!!!!Pena que você não nos mostrou o interior...

Quando estava na sétima série tive que fazer um trabalho sobre Paris...o Iládio foi por mim!rsrsrsrs Foi no lócus de estudo!rsrsrs