quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O Mercado Público e os orixás do tempo

Acabou de me chegar pelo correio um exemplar deste livro aqui:


Trata-se de um projeto da editora Autêntica, de Belo Horizonte, que tive a honra de participar no fim do ano passado. O livro é uma junção de fotos de Cyro Soares e textos de jornalistas diversos sobre os mais importantes mercados públicos do Brasil. Eu fui escalado para apurar e escrever sobre o Mercado Público de Porto Alegre e também o de Florianópolis.

Outras informações sobre o livro, você tem aqui.

Abaixo, segue o texto sobre o mercado gaúcho. Amanhã posto o sobre o de Florianópolis.

***

"O Mercado Público de Porto Alegre e os orixás do tempo

Então passaram os tempos,
entre fogos, chuvas e ventos,
permanece de pé o Mercado Central
Assistindo ao progresso chegar,
ao velho passar e ao jovem envelhecer
És o prédio original e folclórico
És patrimônio histórico do Centro da Capital
Para quem te conheceu és motivo de saudade
Ficarás de pé para sempre monumento
da nossa cidade
[Paulo Naval]

O vigia observa atentamente as pessoas cirularem pelos corredores. Do alto do caixote, colocado bem no centro do Mercado Público Central de Porto Alegre, ele enxerga as quatro entradas do prédio. Cada uma das entradas é protegida por uma flora - lojas que vendem produtos de religiões afro-brasileiras.

À sua frente, a entrada leste do prédio permite ver a Praça Parobé, um aterro onde está localizado o mais importante terminal de ônibus urbanos de Porto Alegre. Antigamente, quando as águas do Guaíba avançavam pelas laterais do Mercado, ali ficava a Doca das Frutas, onde diariamente aportavam embarcações trazendo mercadorias.

Se o vigia olha para a direita, enxerga a entrada sul. É possível ver o Largo Glênio Peres, tradicional ponto de passagem e encontros da cidade. Antigamente, o bonde circulava por ali, passando bem em frente ao Chalé da Praça XV.

Atrás do vigia, a entrada oeste desemboca na Rua Siqueira Campos, que separa a Prefeitura Nova e o Paço Municipal, também conhecido como Prefeitura Velha. Ali ficava há muito tempo a Doca do Carvão, por onde desembarcavam mercadorias, antes da existência do aterro.

Olhando para a esquerda, o vigia vê a entrada norte, que permitiria uma vista única do Guaíba, se não fosse o muro da estação do trem metropolitano.

Sobre a cabeça do vigia, pende do teto uma peça cúbica, com inscrições comemorando os 140 anos de existência do Mercado Público Central de Porto Alegre, completados no dia 3 de outubro de 2009. Também há quatro monitores de plasma veiculando informações sobre pessoas e dados históricos do Mercado. Da posição em que o vigia se encontra, também é possível enxergar os restaurantes do mezanino e os estabelecimentos do segundo andar.

Mas há coisas no Mercado Público que nem o vigia pode ver, como a sala de descanso dos funcionários, o auditório de 80 lugares, o sistema de gás canalisado cuja central fica no porto, o sistema de refrigeração e o túnel subterrâno que liga o Mercado à Prefeitura Velha (alguns historiadores acreditam que pode ter sido um poço onde se colocavam os escravos). Ainda assim, ele é o funcionário que trabalha tendo a melhor vista do prédio.

Um grupo de pessoas, provavelmente turistas, aproxima-se. Eles param quase ao pé do vigia. Dois guias do Memorial do Mercado apontam para o chão, mostrando ao grupo uma pedra que marca o local exato em que se encontra o centro do prédio. O vigia também olha. Um dos guias fala:

- Neste local, reza a lenda que os escravos que trabalhavam na construção do prédio enterraram o Bará... Sabem o que é isso?

O vigia também olha, distraído de seu trabalho. De repente, junta-se ao grupo um homem vestido de branco da cabeça aos pés. Ele diz:

- Eu sei, eu posso contar.

Um mercado de histórias
O Mercado Público de Porto Alegre recebe diariamente 120 mil visitantes (o número chega a 200 mil durante o Natal e a Feira do Peixe, na Semana Santa). É frequentado pelo freguês anônimo e pelos famosos, sejam eles personalidades locais ou turistas das mais variadas origens. É frequentado pelo famoso travestido de anônimo e pelo anônimo que, de tanto vir, acaba se tornando famoso.

Ali se pode encontrar tudo o que diz respeito à erva-mate e ao secular hábito dos gaúchos de tomar chimarrão. Tem gente que vai ao mercado comprar peixe. Outros voltam para casa com alimentos de diversas partes do mundo. Dá para comprar fruta, também, ou carne. Pode comer sorvete. Comprar tecidos ou livros. Tomar um chope ou degustar um bolinho de bacalhau.

Darci de Souza Oliveira, que atende como Paulo "Naval", já viu gente de tudo que é tipo. Aos 73 anos, 52 deles trabalhando no Mercado, Paulo é o garçom mais antigo em atividade. Ele veio de Santiago, RS, a terra dos poetas, e não é à toa que ficou conhecido como "o poeta do Mercado". É dele, por exemplo, o poema "Carreteiro de Charque, tchê", que consta no cardápio:

Meu velho arroz carreiteiro
Feito em beira de estrada
Tem gosto de manjerona
E cheiro de madrugada
Quando começo a te comer
Parece que estou beijando
A minha china amada
E com o feijão mexido
Que faz o acompanhamento
Eu sinto estar servido
No prazer deste momento!

Às 9h da manhã do dia 8 de janeiro de 1957, Darci chegou ao Bar Naval e se candidatou para a vaga de trabalho com o sr. Antonio Lopes Branco, então proprietário. Começou no outro dia. O antigo patrão "já subiu", como Paulo mesmo diz, mas o garçom seguiu trabalhando, atendendo a diferentes clientes e patrões.

Na parede do Naval, há fotos de pessoas ilustres de várias gerações que já frequentaram o bar: os cantores Nélson Gonçalves, Vicente Celestino, Carmen Miranda e Elis Regina (esta última vinha desde criança, quando participava dos programas de calouros); o cantor argentino de tango Carlos Gardel; os políticos Ciro Gomes e Artur Bernardes; e o músico Thedy Corrêa, que inclusive fez no Bar Naval a foto que virou capa do cd "Loopcínio", em homenagem à Lupcínio Rodrigues, um ícone da canção popular brasileira.

Lupcínio, aliás, era o grande frequentador do Bar Naval. Paulo conta que ele chegava de manhã, em companhia do intérprete Jo. Sentava na mesa bem ao lado da porta que dá para o Paço Municipal. Munido de uma cachacinha pura e uma caixa de fósforos, Lupcínio escrevia letras de música. Mas com que papel? Naquela época, papel era coisa escassa. Então Lupcínio chamava o garçom, e mandava:

- Meu camaradinha, o senhor pode me arranjar um pedaço de papel aí? E um toquinho de lápis, que eu perdi o meu.

Paulo Naval arranjava. Apontador, inclusive. E, quando o dono do bar cansou de fornecer papel de graça - "ele que traga papel da casa da mãe dele", disse - Paulo começou a juntar papéis de pacote de cigarro.

Outra história se passou "numa bela tarde de verão", como lembra o garçom. Entrou no bar um senhor de terno preto e chapéu de copa alta e abas curtas. Sentou na companhia de mais três homens. Pediu um chope, com bolinho de bacalhau, então outro chope. Depois saiu.

Só mais tarde, Paulo Naval ficou sabendo que aquele era o General Flores da Cunha, e que dois dos homens eram capangas. Um deles, inclusive, atirador.

No Bar Naval, o pastel de camarão, o pastel de queijo e o pastel de bacalhau custam R$ 3,50 cada.

O segundo e terceiro garçons mais antigos do Mercado são, respectivamente, Jorge Alberto Bueno de Oliveira, o "Vovô", de 69 anos, 42 atendendo no restaurante Gambrinus; e José Carlos Lopes Tavares, o "Zézinho", 62 anos, 40 de Gambrinus. O restaurante centenário fica ao lado do Bar Naval, atendendo porém a um público com mais recursos financeiros. Antigamente, havia um outro bar, o Treviso, que durante décadas foi um ponto de encontro tradicional da boemia porto-alegrense. Reza a lenda que o bar ficava aberto 24 horas e que, em certa ocasião em que precisou ser fechado, ninguém encontrava o cadeado.

O restaurante, porém, um dia fechou definitivamente as portas. Na comparação de Zézinho, o Treviso "era os Beatles" na época, e o "Gambrinus" era os Rolling Stones, que inclusive "estão aí até hoje".

Não só o Gambrinus sobreviveu ao tempo, como o próprio Vovô. Ele conta que quase morreu no colo materno na enchente de 1941. A mãe lhe dava mamadeira no segundo andar do sobrado em que moravam, o que foi a sorte. As águas inundaram o primeiro andar inteiro.

A história das histórias
O Mercado Público Central de Porto Alegre foi inaugurado em 1869. Obra do engenheiro Friederich Heydtmann, o prédio tem estilo neoclássico. Após as diversas reformas, porém, a construção assumiu características ecléticas.

Inicialmente, o Mercado possuia apenas um andar, com torreões nos cantos. Havia um jardim no pátio, que gradualmente foi dando lugar às bancas de madeira. Em 1912, um incêndio destruiu essas bancas. Como o prédio da Prefeitura agora se erguia majestoso ao lado, pensou-se que seria conveniente construir um segundo andar. A inauguração foi no mesmo ano. A parte de cima (que ficava visualmente separada da parte de baixo em função do telhado das bancas) abrigava, em geral, serviços administrativos.

No dia 9 de maio de 1941, uma enchente deixou o primeiro andar do Mercado debaixo da água. Uma placa foi colocada na entrada sul, para marcar até que altura a água chegou.

Houve dois outros incêndios, de proporções menores, em 1976 e 1979. O prédio também passou por ameaças de demolição. Em 1979, porém, o Mercado foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre.

Na década de 1980, uma reforma mudou o piso interno e aperfeiçoou as instalações elétricas. Foi só na década de 1990, porém, que o prédio passou por uma restauração. Além da instalação de elevadores e escada rolante, foram construídos três mezaninos, que hoje abrigam restaurantes. A intenção foi revitalizar o segundo andar, que ficava escondido dos olhos dos frequentadores. Em 1997, o Mercado Público reabriu totalmente as portas, na configuração em que se encontra até hoje. O projeto de restauração ganhou o prêmio da Bienal de Arquitetura de São Paulo.

No final da década de 1990 e início dos anos 2000, aconteceu uma reforma administrativa, que visou atualizar os contratos de todos os permissionários. Hoje o Mercado é sustentado por um fundo próprio, advindo do aluguel das bancas, valor que é investido exclusivamente no prédio.

A administração do Mercado organiza eventos culturais, como a Feira de Gibis e a Feira de Vinil. O Jornal do Mercado, publicação mensal, organiza torneios de futebol e kart voltados para os funcionários, além do concurso de fotografias, aberto ao público em geral.

A gestão do Mercado Público Central de Porto Alegre é modelo para outros mercados. Equipes de Pelotas, Rio Grande, Salvador, Juiz de Fora, Florianópolis, São Paulo e Montevidéo já estiveram na cidade para aprender com a experiência da capital gaúcha.

Em 1999, foi criado o Memorial do Mercado, cujo objetivo é preservar a memória do lugar e das pessoas que passaram por ele. Uma das ações é o Projeto Vozes, que proporciona visitas ao Mercado guiadas por um grupo de teatro, fazendo educação patrimonial através da arte.

Mais histórias
Quando Paulo Autran vinha se apresentar no Theatro São Pedro, ele passava na Banca 43 para comprar uísque Johnny Walker original. Se Cláudio Klein, 58 anos (há 44 no Mercado), um dos proprietários da banca, não tinha o uísque para vender, comprava em outros lugares e levava para o ator.

Na Banca 43, pode-se comprar "especiarias nacionais e importados", como diz o letreiro. É possível comprar: frutas secas (da safra do ano vigente); cuscus marroquino; molhos ingleses; chocolate, Marzipan, salsicha defumada e arenque alemão; azeites libaneses; arroz italiano; anchovas espanholas; castanha francesas.

- Num sábado de tarde, parou uma limusine em frente ao Mercado, e desceu o presidente Geisel com a família e mais dois seguranças - conta Cláudio.

O presidente Geisel comprou passas de pêssego, iguaria tradicional de Pelotas/RS, para levar a Brasília. E a família dele compra lá produtos de origem alemã até hoje, em função da ascendência germânica.

Cláudio diz que é possível olhar pelo corredor e avaliar, pela quantidade de gente, a situação do mercado financeiro. Sem consultar a bolsa de valores nem nada. Para ele, o Mercado "representa tudo o que o estado produz em matérias de alimentos frescos, que são comercializados da forma mais tradicional, ou seja, fracionado, a granel, não-embalado". Sem falar que é frequentado por "desde marmiteiros até executivos".

E poetas. Pois certa feita, quando uma administração municipal pretendia derrubar o Mercado Público para construir uma avenida, Cláudio foi até a Banca 40, onde Mário Quintana estava, e perguntou ao poeta o que ele achava sobre isso. Surgiu então a célebre frase:

- O Mercado Público é protegido pelos fantasmas do tempo!

Quintana frequentava a Banca 40, a banca mais tradicional do Mercado. Durante décadas, a sorveteria foi o ponto de encontro de intelectuais e artistas da cidade. E é até hoje. Maria Madalena Melo Martins, 62 anos (há 32 no mercado), não consegue lembrar de todo mundo. Algumas vezes, só fica sabendo que o cliente era uma celebridade após sair uma matéria no jornal.

Em 1991, o jornalista Eduardo Bueno levou o músico estadunidense Bob Dylan para comer na Banca 40. Ninguém o reconheceu.

As histórias mais lembradas por Maria, porém, são com pessoas comuns. Como a do senhor que acordou do coma, depois de 35 dias inconsciente, e a primeira coisa que perguntou foi:

- A Banca 40 ainda existe?

Também há muitos casais que se conhecem na Banca 40 e depois voltam para lá para celebrar noivados e casamentos, apresentar filhos, netos e, inclusive, bisnetos.

A principal iguaria é a Bomba Royal, inventada pelo primeiro proprietário da banca, Manoel Maria Martins, sogro de Maria. O prato surgiu após a visita de um grupo de alemães à sorveteria. Eles eram refugiados da Segunda Guerra. Através do intérprete, pediram para servir junto três pratos tradicionais da casa: salada de frutas com nata, salada de frutas com sorvete e uma taça de sorvete. Para atender ao pedido, Manoel improvisou um prato com salada de frutas sem caldo na parte de baixo, com mais três bolas de sorvete e mais a célebre "nata batida" (um segredo guardado a sete chaves). Depois que os alemães foram embora, a iguaria foi batizada e consolidou-se como tradicional da casa. Custa R$ 7,00.

Na Banca 40 também são vendidos açaí na tigela, sanduíches, vitaminas, creme de papaia ao cassis, pratos quentes no almoço e frutas para levar.

Maria seguidamente é abordada por pessoas querendo comprar a Banca. Apesar das ofertas tentadoras, o proponente sempre ouve a mesma recusa. Afinal, para Maria, a Banca 40 não é apenas um negócio, mas um lugar de relações. Ela diz que sente o carinho do povo que vai à sorveteria, quase como uma família.

Um mercado protegido
O vigia do Mercado observa o pai-de-santo, que começa a explicar:

- O Bará é um orixá, uma divindade. Ele é dono dos caminhos e das encruzilhadas e representa também o trabalho, a fartura e o início de todas as coisas. E o Bará está assentado aqui, exatamente no centro do Mercado.

Segundo diz a religião africana, a divindade foi fixada em um ocutá, que está enterrado sob o chão, no centro do prédio. Até hoje há rituais de iniciação no Mercado, em função disso.

- Alguns dizem que foi um príncipe africano chamado Custódio quem enterrou o Bará, e não os escravos - diz o ator que interpreta o pai-de-santo.

Na Banca 43, bem ao lado, Cláudio pensa que Mário Quintana tinha realmente razão. Afinal, o Mercado Público de Porto Alegre é protegido pelos orixás do tempo."

3 comentários:

Pequeno Universo Fã Clube Nordeste disse...

Que legal essa história do Thedy ter feito a foto do CD "Thedy Correêa canta Loopcínio Rodrigues" no Mercado Público de POA.
Desconhecia completamente.
Ainda bem que encontrei esta informação aqui.
Parabéns pelo texto.

Carla Arend disse...

sinto orgulho =)
e saudade!

Sara disse...

Oi Augusto, depois de um tempo sem ler o teu Blog, retorno a ele e me deparo com os bons textos de sempre!
Adorei as reportagens sobre os Mercados Públicos, tô até pensando em fazer uma visita lá passando pelas bancas que tu falaste!
Os teu Blog é uma das minha leituras preferidas!Parabéns!